Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?

Pensando sobre um foco alternativo para minha tese em um master em comunicação, uma amiga sugeriu que eu falasse também sobre as novas celebridades da cozinha, os super chefs, famosos em todo o mundo e que arrecadam milhões de dólares com seus shows de TV e aparições trans-midiáticas. Talvez não vire tese, mas o assunto vale com certeza diversos comentários.

É impressionante como a glamourização da profissão de chef, que ocorre de forma bastante difundida já há no mínimo uns 15 anos, tomou hoje dimensões fora do comum. Hoje alguns chefs internacionais atingiram um tamanho grau de midiatização que anteriormente somente cantores e bandas de rock, atores ou jogadores de futebol conseguiam atingir.

Existem os cozinheiros que viraram famosos por suas estrelas Michelin e pela qualidade de suas inovações culinárias, e a partir daí passaram a freqüentar permanentemente a mídia especializada. Nada mais justo do que isto, faz parte da carreira e toda profissão tem os gênios que se destacam. Mas o fato é que a maioria das celebridades das panelas de hoje não têm um passado glorioso nas cozinhas de seus restaurantes, ao contrário, em alguns casos nem vêm desta área. A Inglaterra é um dos países onde mais este fenômeno se consolidou. Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson são hoje mais valiosos pelos seus salários milionários e merchandising pagos por redes de TV do que pelas suas qualidades culinárias, e também o Mario Batalli nos EUA. Até mesmo o chef Heston Blumenthal, que é reconhecido como um dos melhores chefs ingleses da atualidade e tem uma imagem muito boa entre seus pares e entre alguns dos gastrônomos mais influentes, também preferiu virar uma verdadeira celebridade mundial com seus shows na TV.

Algo de errado nisto? Não, nada de errado, pelo contrário, ajudam a promover a cultura da boa alimentação e de quebra fazem girar o mercado de gastronomia. E conseguem entreter (eu assisto). Mas como é que cozinheiros passaram a ser super stars da mídia tão idolatrados pelo público como são os rock stars, os atacantes artilheiros ou os filhos de hollywood?

Antigamente os programas de culinária eram dirigidos às donas de casa, afinal, na época, cozinheiro homem só em restaurantes. Lembram da Ofélia? Ficou famosa na TV já em 1958 no programa Revista Feminina da TV Tupi, mas seu maior sucesso veio com o Cozinha Maravilhosa da Ofélia, pela Bandeirantes em 1968.

Já um dos primeiros cooking shows da TV americana foi o The French Chef, da (lá) famosa Julia Child, que estreou em 1963. Ela esteve no ar com outros programas e series até 2000. Julia morreu em 2004 aos 92 anos de idade, e neste ano de 2008 tornou-se público que ela tinha sido uma espiã da OSS americana (pré-CIA) durante o pós-guerra, muito antes de virar famosa com sua culinária na TV. Wow, chef famosa na TV e espiã americana? Isto sim é que é uma fantasia completa!

Aqui Julia Child ensinando o preparo de perfeitos omeletes:

(E aqui no link Julia Child mais engraçada, brincando com frangos, em um video que não deu prá colocar no post.)


Os tempos mudaram, os homens agora adoram dizer que amam a cozinha e os restaurantes se sofisticaram e ficaram mais acessíveis à classe média, além disso a gastronomia virou um business rentável e considerado até por grandes grupos investidores. Na mídia, além do poder da TV de transformar seus personagens em ídolos populares, e do entretenimento ser a palavra de ordem nos caixas registradores dos grandes canais, a internet e todos os meios da new mídia construiram novas relações entre cidadãos e sociedade, e o indivíduo comum passou a ter acesso à formação de opinião, como neste e nos milhões de outros blogs por aí. Mesmo quem não vê os programas dos chefs na TV, agora vê ou fica sabendo pela web.

E querem fazer igual. Um simples passeio pelo You Tube traz algumas novas distorsões do fenômeno ‘chefs na TV’. Midiatização é o conceito que explica como a mídia interfere no comportamento do cidadão e este, através da sua audiência, interfere de volta na criação e programação de novos shows e séries. Tudo está interligado. Vejam por exemplo este senhor que está tentando filar seu bocado nesta onda, o The Poor Chef:

E aqui a sua infeliz criação latino-americana, exemplo do que foi dito acima:

E prá fechar, veja aqui o Jamie Oliver em um mix de cozinheiro, rapper-reggae, baterista, apresentador de TV e clown. Talvez seja uma das grandes demonstrações do super-pós-modernismo, reparem como a platéia não sabe muito bem como reagir. Entretenimento puro: ele resolveu cantar sua receita, o reggae é legal e o garotão está se divertindo de verdade. Isto é o que vale.

Após tudo isto fico pensando, será que tem ainda espaço para mais? Já não estamos começando a nos cansar desta permanente celebrização midiática dos chefs? Acho que se você olhar pelo lado do entretenimento e diversão, ainda vai rolar muita novidade por aí, pois por enquanto parece que ainda tem espaço para tudo, e até mesmo para alguns exageros…  O bom da história é que a gente agora pode escolher entre bons e ruins . E quem quiser, pode até tentar fazer igual. Mas se alguém aí for tentar, por favor preste atenção, não tá muito difícil melhorar os exemplos que andam rolando por aí… não é?

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Crisis, What Crisis?

Tom Aikens é um jovem chef britânico de 38 anos, que passou por vários restaurantes trabalhando com chefs estrelados pelo guia Michelin, e em 2003 abriu seu restaurante Tom Aiken’s em Londres, ganhando sua primeira própria estrela Michelin em 2004. Em 2005 o Tom Aiken’s foi eleito o oitavo melhor restaurante do mundo pela badalada lista The World’s 50 Best Restaurant, da Restaurant Magazine. Em 2006 ele abriu seu segundo restaurante na capital britânica, o Tom’s Kitchen, seguindo a tendência de grandes chefs que abriram suas segundas ou terceiras casas com menos formalidade e menus ligeiramente mais econômicos. 

Um chef de sucesso. Ou quase, se não fosse por alguns fatos curiosos de sua carreira, daqueles típicos para serem contados com orgulho por cozinheiros brigões bebendo em bares ao final de mais uma suada madrugada. 

 

Evening Standard

Chef Tom Aikens - foto: Evening Standard

 

Em 1999 quando trabalhava no duas estrelas Pied à Terre, também em Londres, ele foi demitido por ter “tatuado” um de seus chefs trainées com uma faca quente. Em 2004 ele teve uma briga no meio do seu estrelado salão bloqueando a saída de um cliente e acusando-o de roubar uma colher de prata, dizendo-lhe em voz alta: “Uma colher de prata está faltando na sua mesa, o que você sabe a respeito disto?”. O incidente acabou no The Times. Em fevereiro deste ano ele abriu seu terceiro restaurante, o Tom’s Place. A proposta desta nova casa era a de servir o tradicional prato fast food inglês, o Fish&Chips, com toques sofisticados e a preços de chef estrelado. Além da proposta talvez inadequada, o cheiro da cozinha na vizinhança também foi denunciado como inadequado, e o restaurante fechou em agosto, 6 meses após sua abertura. 

Agora com a crise mundial de crédito, no mês passado uma avalanche de reclamações de seus fornecedores por falta de pagamento levaram as duas casas restantes do simpático chef a serem resgatadas momentos antes de sua falência pelo grupo de investimento Oakley Capital Private Equity LP . Eles criaram uma nova empresa, a TA Holdco Ltd, da qual Tom agora é minoritário, e ficaram com os restaurantes. Tom é o chef da cozinha, mas as dívidas com os fornecedores continuam sobre a sua cabeça. 

Após o boom dos bons restaurantes ingleses no final dos anos 90 e inicio deste século, foi criado um mercado produtor próprio de ingredientes de alta qualidade naquele país, salvando assim os gran-bretões de terem que consumir eternamente os produtos franceses.  Como as casas de Tom sempre utilizaram os melhores produtos disponíveis, e os produtos de primeira qualidade são sempre produzidos por pequenas empresas, não é mais fácil vencer a batalha com os pequenos credores se a empresa devedora for um grande fundo de investimento? Esta parece ter sido a estratégia. 

No total são 160 pequenas empresas cobrando uma dívida de cerca de 100 mil libras (348 mil reais) do aventureiro chef. São dívidas pequenas, a média aproximada é de 6 mil libras (20 mil reais) por boca, mas que certamente fazem uma tremenda falta para uma empresa pequena. Por sua vez a nova holding controladora tem compromissos também com bancos, certamente na casa das centenas de milhares ou milhões de libras entre este “pequeno negócio” e suas demais aquisições por aí. E quem você acha que vai receber primeiro, os bancos ou o quitandeiro? 

Desta forma a crise acaba levando pequenos fornecedores de peixe fresco, de carne de carneiro, de sashimis, de files de sardinha, de cogumelos, de vitelos e de leitões finamente criados, a ficarem também com o pato. Servido com abacaxi. 

E o simpático e aventureiro chef tem assim mais uma história para contar na sua roda de brigões. Mas será que desta vez alguém vai lhe dar uns petelecos?

 

Na semana passada, em viagem à Londres, estive no Tom’s Kitchen com uma querida amiga. O lugar estava cheio, lotado, difícil conseguir reserva… ué, mas ele não estava quebrando? No post abaixo conto como foi.


Outros links usados neste post:

Bloomberg | Daily Mail Online | Evening Standard | Word of Mouth-Guardian 

 

 

 

Visita ao Tom’s Kitchen

Pois é, fui então visitar o Tom’s Kitchen, em Londres, o segundo restaurante do chef Tom Aikens (ver post acima sobre a crise de seus restaurantes).

Liguei às 11 da manhã no mesmo dia para pedir reserva. Mesmo não sendo o principal restaurante dele, não tinha mais lugar em mesas, só no bar. Semanas antes por coincidência uma amiga minha londrina tinha me falado que era amiga da esposa do chef Tom. Dois telefonemas depois consegui uma mesa. Mas tinha que chegar lá às 6 e meia da (escura) tarde, e deixar a mesa às 8 e meia. Tudo pontual. Foi o que fiz.

Térreo

Salão do Térreo

O local tem 3 andares, mais ou menos umas 60 mesas no total. Ficamos no térreo, o melhor salão, e que estava vazio quando fomos os primeiros a chegar. O restaurante é simpático, destes lugares descolados que se encontram em qualquer grande capital. Mas por isto mesmo talvez lhe falte uma personalidade mais própria. Faz o estilo loft com paredes descascadas brancas e móveis em madeira clara, é bonito mas é comum. Os atendentes são jovens, simpáticos, precisos, como se pode esperar de um profissional britânico.

Fomos direto ao menu. Claro, nunca olhe para os preços se eles estiverem em libras esterlinas, a tentação é grande, mas deixe-os fora da sua experiência gastronômica, uma simples olhadinha e seu jantar pode estar arruinado. Seguindo à risca esta regra, pedi uma entrada de risotto de raízes

Root Vegetable Risotto with Fontina, Toasted Walnuts

Root Vegetable Risotto with Fontina, Toasted Walnuts

vegetais, queijo fontina, nozes tostadas e creme fraiche, com umas lascas de parmesão por cima. O risotto por si só já estava bom, cremoso na medida certa e, como éramos os primeiros da noite ele foi servido imediatamente. Mas não foi anunciado no cardápio que haveria um toque a mais de azeite trufado. Como meu próximo prato seria também trufado, achei que eles deveriam ter avisado antes. Fiquei “overtrufado”. A outra entrada da mesa foi escalopes de pão frito com maçãs verdes, salada e creme de rábanos.

Slow Roast Belly of Pork with Creamed Truffled Pearl Barley and Red Chard

Slow Roast Belly of Pork with Creamed Truffled Pearl Barley and Red Chard

Como principal pedi uma barriga de porco lentamente assada, com creme trufado de cevada, acelgas suíças e acompanhado por purê de batatas. Este sim estava bom, a carne com sua pele crocante combinava muito bem com o molho aveludado e quase doce, mas não era inesquecível, só bom. Minha amiga pediu um filé com fritas, isto mesmo, um steak de contra à Bearnaise com fritas à francesa, que segundo ela estava fantástico.

Sirloin Steak with Big Chips and Béarnaise Sauce

Sirloin Steak with Big Chips and Béarnaise Sauce (abaixo na foto o meu purê de batatas)

Mas tudo bem, ela não conhece a carne grelhada no Brasil ainda. Tudo foi acompanhado por uma garrafa de um rioja crianza, o La Montesa 2004. E para sobremesa dividimos uns profiteroles com sorvete de baunilha. Ao final, nada entusiasmou muito, mas estava tudo correto, com exceção do excesso de sabores trufados – o que é grave, e dá aquele ar de “quero ser chic”.

Às 8 e meia em ponto vieram gentilmente nos solicitar que passássemos ao bar, pois os próximos ocupantes da mesa já haviam chegado. Terminamos a noite com shots de whiskey, mas ainda eram 9h! Total da noite 122 libras (454 reais de hoje pelo Yahoo Converter). É caríssimo para brasileiros, principalmente se você considerar que o lugar não vale mais do que, por exemplo, o bom Spot paulistano ou o ótimo Garcia e Rodrigues carioca (prá ficar nos badalados). Mas quando saímos o lugar estava cheio, muito cheio… parece que não é caro para os ingleses que ainda não enfrentaram o credit crunch.

O Tom’s Kitchen fica numa casa em uma rua residencial pouco movimentada no Chelsea,  27 Cale Street – se você for até lá desça na estação South Kensignton do metrô e caminhe 5 minutos. Já seu primeiro restaurante, o 1 estrela Michelin Tom Aiken’s, fica na primeira esquina dali, bem ao lado.

Arroz, Feijão e Bife

Ontem à noite no Prêmio Paladar, prêmio para os melhores pratos da gastronomia de São Paulo realizado pelo Caderno Paladar do Estadão, nada chamava muito à atenção. Até que foi anunciado o prêmio para o melhor prato Trivial da cidade.

Tudo bem que os finalistas desta categoria eram todos restaurantes de peso na cena gastronômica da cidade, afinal é natural que os membros do júri não tenham perdido tempo com seus cartões de crédito liberados, mas o premio dado nesta categoria não poderia deixar de chamar mais a atenção do que chamou, sendo entregue ao chef Alex Atala do DOM e do, à abrir, Dalva & Dito.

Arroz, feijão e bife do DOM - foto Paladar online

Arroz, feijão e bife do DOM – foto Paladar online

Pois é, o top chef brasileiro, jovem reconhecido hoje no mundo todo como melhor chef do país tropical, dono do 40º melhor restaurante do mundo no principal ranking da categoria em 2008, que pesquisa incessantemente os ingredientes brasileiros por este país e que há 4 semanas recebeu em São Paulo alguns dos maiores chefs do mundo servindo-lhes o turu, um tipo de verme amazônico encontrado dentro de toras de madeira, foi premiado por um dos mais importantes jornais do país pelo seu prato…. Feijão, Arroz e Bife. Simplesmente genial.

Ele mesmo já disse outras vezes que arrancar suspiros e aplausos de seus comensais com pratos franceses ou elaborações mirabolantes com ingredientes brasileiros é fácil, afinal quem é que come todo dia fois gras, vieiras marinadas ou consommé de cogumelos? O difícil, disse ele, é arrancar suspiros de um brasileiro servindo-lhe arroz com feijão, o prato que a gente come quase todo dia desde criancinha. “Se um comensal me disser que meu arroz com feijão está bom, vou saltar de alegria”.

Arroz, feijão, bife e fritas versão popular - foto blog Brasileiro Gosta

Arroz, feijão, bife e fritas versão popular – foto blog Brasileiro Gosta

E é com este espírito de valorização não somente de nossos ingredientes ou de nossa cultura de raíz, mas também de nossos hábitos e costumes à mesa, que alguns chefs começam a brilhar na cena nacional e internacional. Este me parece um bom caminho para se resgatar a confiança em nossa própria comida. Além das frutas exóticas e das combinações de jambú com arroz de pequi (esta é minha, parece boa, deve funcionar principalmente se você se picar com os espinhos do pequi), os pratos de botequim, os pratos do dia paulistano, e a criatividade caseira, enfim, o hábito gastronômico brasileiro, também devem ser mais premiados pelos bons restaurantes da cidade.

Pois é, pode saltar de alegria Alex, esta foi boa!

Links:

Caderno Paladar

Blog Brasileiro Gosta