And the Oscar goes to… Tacacá!

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Todo país tem seus pratos típicos, e cada região tem suas riquezas culinárias. E o Brasil tem inúmeras riquezas e vários pratos típicos, etc etc etc, mas não tem nada que se compare à grandeza do tacacá. Tão popular no norte, vendido em bancas de tacacazeiras na rua, e tão sofisticado ao mesmo tempo. Prá mim o tacacá é o prato autenticamente brasileiro mais sofisticado que existe, e arrisco dizer que o tacacá, assim em sua versão tradicional e popular, poderia ser servido em qualquer restaurante estrelado do mundo. Se não fosse um prato popular e algum chef o tivesse inventado em seu restaurante na Provence ou nas ruas da Ille-Saint-Louis, ele certamente ganharia mais uma estrela Michelin em seu restaurante por isso. Tudo bem, pode parecer exagero, mas eu realmente acredito nisso.

Pensa só: 

O tucupi e a goma de mandioca (que muita gente substitui pelo banal tofu) – primos complementares, o jambu e a chicória – que bela dupla, o camarão seco e a pimenta de cheiro, pitadinha de sal e leve alho. Tudo servido como um caldo, com a  pureza do sabor de cada ingrediente que se complementa sem se misturar, servido em uma bela cuia (que todas são belas), prá se tomar indigenamente (quase como fazem os orientais com seu missoshiru). Não é perfeito?  O sabor azedinho do tucupi e o amargo anestésico do jambu por si só já são uma combinação ótima, mais o camarão salgadinho e a goma que neutraliza os forte excessos e a fantástica pimenta de cheiro, enfim, tá tudo lá com uma sofisticação de paladar tremenda e uma apresentação rica e exótica, quente e reconfortante. É o fino da bossa.

Sendo só indígena mesmo, ou seja, de pura origem brasileira sem influências de nenhuma outra cultura como têm quase todos os demais emblemas de nossa culinária (como os pratos baianos, os mineiros e os do sul), o tacacá é um dos maiores tesouros de nossa culinária.

Ok, decidido, eu estou aqui, solenemente elegendo o Tacacá como o mais maravilhoso prato brasileiro de todos os tempos. E quem não concorda pode criar seu proprio prêmio para outros pratos!

E como não podia deixar de ser, aqui vai uma receita de Tacacá:

tacaca21Ingredientes:

  • 2 dentes de alho amassados
  • quanto baste de sal
  • 4 pimentas de cheiro
  • 2 maços de jambú
  • 500 gr de camarão seco
  • 1 mão de goma de mandioca (equivalente à 1 xícara)
  • 1 litros de Água
  • folhas de chicória do norte
  • 600 ml de tucupi
  • (se não conseguir a goma, que acho que deve ser impossível por aqui mesmo, usa-se 1 xícara de chá de polvilho azedo)

    Modo:

    Numa panela, coloque o tucupi, o alho, a chicória, o sal e a pimenta. Leve ao fogo alto e deixe ferver. Abaixe o fogo, tampe a panela e cozinhe por cerca de 10 minutos. Enquanto isso, em outra panela, coloque as folhas de Jambú, cubra com água e cozinhe até os talos ficarem macios. Tire do fogo e escorra bem. Lave os camarões secos em água corrente, coloque numa panela, cubra com água, leve ao fogo alto e deixe ferver. Tire do fogo e descarte as cabeças e cascas dos camarões. Coloque a goma (ou o polvilho) e 4 xícaras de água numa panela, misture, leve ao fogo alto e cozinhe, mexendo sempre até obter um mingau transparente. Em cubas individuais, distribua o tucupi quente, o mingau de polvilho, as folhas de Jambú e os camarões. Leve imediatamente à mesa.

    (atenção, esta receita foi copiada na web, nunca preparei)


    E procurando um vídeo sobre o tacacá encontrei alguém que concorda com isso. Aqui a matéria que o Olivier fez sobre esta maravilha do Pará (meninas, vocês não vão discordar do bonitão aí, vão? :)) 

     

    E viva a culinária do Pará!

    E se você fosse um sushi??

    Da seção “brincadeiras em um restaurante”, aqui você vai ver como seria sua última visão do mundo se você fosse um sushi em uma esteira de um kaitenzushi de Tokyo… 

    E aproveite e veja como é um original restaurante destes por lá..

    Dica para quem não cozinha mas quer fazer pratos legais

    Se você quiser ser um chef de verdade vai demorar muito tempo estudando e praticando, e se quiser ser bom mesmo vai ter que passar a vida se dedicando a isso, mas se quiser aprender a preparar só alguns pratos e ter umas dicas fundamentais, pode ser tão rápido quanto pegar o carro e dar um pulo no Capim Santo e ter uma aula com a chef Morena Leite ou com seus vários convidados que ministram aulas em encontros únicos e exclusivos, com jantar e bate-papo agradabilíssimos. Veja a programação da escola do Capim Santo aqui. Eu não sou cozinheiro e só me aventuro de vez em quando na cozinha, mas fui na semana passada na aula dela e olha aqui o que foi que eu mesmo preparei em 35 minutos:

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    Não é prá impressionar qualquer convidado na sua casa? É um linguado recheado com farofa de palmito pupunha, com molho de hortelã, laranja e pimenta de cheiro, acompanhado por um petit gateau de banana da terra com laranja. Simples, fácil e prático de se fazer. Não parece? Mas é. E é claro também que você não vai virar um cozinheiro só com uma aula, mas vai ter a sensação que entrou no bonde andando e ainda sentou na janelinha, e o melhor, as aulas são divertidíssimas e boas para conhecer pessoas legais.  

    A escola do Capim Santo tem encontros com diversos temas, como este que fui, e tem também um curso que a Morena ministra em 4 aulas, onde você aprende desde as bases até alguns pratos mais elaborados. Veja as fotos:

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    Panorâmica da área da cozinha, com a Morena Leite ao fundo dando a aula

    Chef atenta aos alunos

    Chef atenta aos alunos

    A mesa do jantar, cada um come sua prórpia preparação, mas degusta também os demais - benchmark!

    A mesa do jantar, cada um come sua própria preparação, mas degusta também os demais - benchmark!

    Explicações da chef até durante o jantar!

    Dedicação da chef até durante o jantar

    Vá com amigos e divirta-se aprendendo. Aqui eu (no meio) com meus amigos..

    Ótimo programa para ir com amigos... (aqui eu sou o do meio)

    É isso aí, qualquer um pode aprender a cozinhar pratos dignos de chef, ou pelo menos a ponto de não fazer feio na hora de impressionar com seus dotes culinários em um jantar para poucos convidados. Aliás, para os solteiros ou descasados, isto é tiro e queda…

    E para quem quer a receita deste prato da Morena Leite, aqui vai:

     

    Peixe

    1,200 Kg de filé de linguado (4 filés)

    1 limão

    sal e pimenta do reino a gosto

     

    Recheio

    50 ml de azeite

    5g de alho

    5 0g de cebola

    500 g de palmito pupunha

    300 ml de leite integral

    200 g de pão de forma

    sal a gosto

     

    Petit gateau de banana

    5 bananas da terra bem maduras(500g)

    300 ml de suco de laranja

    130 g de manteiga

    70 g de açúcar

    70 g farinha de trigo

    8 gemas

    4 claras

     

    Molho

    Suco de 1 dúzia de laranjas

    100 g de geléia de pimenta

    10 g pimenta de cheiro picada em brenoise pequeno sem semente

    5 folhas de hortelã picada

    10 g de farinha de trigo

    10 gramas de manteiga

     

    Preparo:

    Temperar os filés de linguado com o limão, o sal e a pimenta do reino. Reserve. 

    Recheio: Doure o alho na manteiga, acrescente e refogue a cebola, deixe dourar e adicione o palmito ( cortado em cubos bem pequenos). Refogue, acrescente o leite e quando o palmito estiver cozido adicione  o pão picado e tempere com o sal e a pimenta do reino. Mexa até soltar da panela. 

    Coloque o recheio no filé de peixe e enrole como um rocambole e leve ao forno de 9 a 12 minutos a 180°C

    Petit gateau: Descasque as bananas, corte-as em rodelas e adicione o suco de laranja. Amasse bem e leve ao fogo até cozinhar. Derreta a manteiga, acrescente à banana e bata no liquidificador até obter uma massa lisa. Coloque em uma tigela e acrescente o açúcar, mexendo até esfriar. Acrescentar as claras, as gemas peneiradas e por último a farinha de trigo. Mexa delicadamente. Colocar para assar em forminhas untadas com manteiga e farinha em forno a 180°C por 3 a 4 minutos. 

    Molho: Espremer as laranjas e deixar reduzir o suco misturado com a geléia de pimenta e a pimenta de cheiro picada em brenoise pequeno.  Reduzir por aprox. 25 minutos em fogo baixo.  Acrescentar a farinha de trigo misturada com a manteiga para engrossar e por último a hortelã picada. 

    Rendimento: 4 porções

    Tempo de preparo: 1 hora

    Grau de dificuldade: médio

    Televisão com cheiro (prá quem não viu)..

    Pois é, os japoneses estão desenvolvendo experimentalmente a televisão/web que transmite cheiros. Saiu no Fantástico deste último domingo, e eu só vi aqui no vídeo do youtube:

    Mas na verdade isto já é uma idéia e projeto antigo. Este mesmo cientista japonês já foi noticiado em 2006 na BBC, e desde 1960 se fala em Smell-O-Vision, que foram as primeiras experiências com insuflamento de aromas em salas de cinema relativos às cenas dos filmes exibidos.

    Particularmente eu acho isto muito interessante como uma possibilidade prá quem quer ter esta opção. Mas é um aparato complicado e acho que continuará sendo complicado mesmo daqui a alguns anos quando os japoneses reduzam isto à pequenos plugins e consoles de aromas em miniatura. E apesar de ser muito interessante, isto me parece uma daquelas coisas que: é possível de se fazer, vai dar prá comprar e tudo mais, mas vai acabar ficando obsoleto com o tempo simplesmente porque ninguem tá afins de ficar sentindo cheiros pelo computador, e principalmente os aromas de anúncios publicitários que é onde mais vão querer usar. Ou seja, para ocasiões específicas como uma aula de culinária online, pode ser bem legal, mas como algo integrado ao dia a dia do usuário web, acho que não rola mesmo. 

    De qualquer forma claro que eu gostaria de experimentar um treco destes. Deve ser legal também para namorados à distância, que queiram transmitir o cheiro de suas camisetas. Urgh..

    Sonho de um país sem pizza

    pizza

    A BBC Brasil publicou hoje que na Coréia do Norte abriram a primeira pizzaria do país!! Mas como? Ainda tinha algum país sem pizzaria no mundo? Achei que tinham pizzarias até na Suméria!!

    Claro que a ordem para abrir a pizzaria mais solitária do planeta foi dada pelo ditador Kim Jong-il (ou também Kim Jong II). Ele mandou uma turma de cozinheiros coreanos para aprender como fazer a redonda na Itália e disse que a Coréia do Norte vai ter agora “alguns dos mais famosos pratos do mundo”. Leia toda a matéria no link acima, seria hilária, se não fosse trágica.

    O jornal coreano que foi fonte da matéria da BBC disse ainda que a pizzaria, que foi aberta em dezembro, está sempre cheia. Claro, e pode cobrar quanto quiser pela pizza também, certo? A questão  é que a Coréia do Norte é um dos países mais pobres do mundo e que depende de ajuda humanitária para alimentar sua população. Neste inverno já são 9 milhões sem ter o que comer (números da ONU na matéria).

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    Será que o Kim pensa que vai servir pizza prá toda esta gente? É bem provável mesmo que ele esteja pensando numa maneira de reproduzir pizza aos montes e cobrar por isto, né não? Oras, que melhor negócio do mundo pode haver para um ditador maluco do que abrir a única pizzaria na redondeza num lugar com uma demanda por comida como esta?

    Bom, na verdade, negócio melhor do que esse só mesmo servir pizza pro congresso brasileiro. Ah, se o Kim descobre isso!…

    Açaí faz sucesso nos EUA com marketing trambiqueiro

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    Açaí é brasileiro (foto Breno Peck no Flickr)

    Matéria publicada na quarta-feira 11 no NYT e assinada por Abby Ellin, mostra o sucesso e o drama do marketing abusivo sobre o açaí nos EUA.

    Nosso querido Açaí está fazendo um sucesso tremendo por lá. Diz a matéria que em 2008 foram introduzidos e licenciados nos EUA 33 novos produtos à base de açaí, contra apenas 4 em 2004, e que a venda de produtos à base de açaí alcançou a marca de 106 milhões de dólares no ano passado (imagino qual a ínfima porção desta grana é a parte dos produtores de açaí no Brasil perdido do norte). São produtos desde alimentícios até estéticos e rejuvenescedores, e é aí que está o problema.

    produtos-de-acai2Os produtos à base de açaí estão sendo vendidos principalmente pela web, e prometidos como produtos “milagrosos”, como “a fruta misteriosa que vem da amazônia” e que vai fazer você emagrecer, rejuvenescer, e até remover suas rugas. E estão também usando desautorizadamente o nome de famosos para testemunhar e assinar os produtos, como a Oprah Winfrey. Mas agora a mídia e autoridades começaram a perceber que não há pesquisas que comprovem nada. Claro, não há mesmo. Mas um tal de Dr. Schauss afirma que o açaí é um excelente anti-oxidante e baseia-se em uma pesquisa que ele fez com… 12 pessoas.

    Ou seja, vieram uns americanos prá cá, levaram a fruta prá lá, outros seguiram e fizeram o mesmo, e aí armaram uma fúria marketeira que a transformou em fruta milagrosa ao ampliar e exagerar o conceito de açaí que nós mesmos temos, e começaram a vender seus produtos pelo mesmo sistema que vendem as bombas para aumentar seus pênis ou as pilulas de viagra falsificadas. Enfim, na terra do Tio Sam o açaí virou trambique de malandro americano.

    Na verdade a única coisa que se sabe sobre o açaí é o nosso hábito brasileiro com a fruta, que em sua maioria, nós aqui comemos açaí como algo que “substitui uma refeição”. Aqui no escritório mesmo tô cansado de ver a moçada que de vez em quando ao invés de “bater um rango, batem um açaí”. E tenho certeza que no norte e nordeste do Brasil, onde mais se consome a fruta, o açaí já deve ter “curado muita gente” e “salvado muito pai d’égua na hora da cama”, além disso mata a fome que é uma beleza.

    Mas aqui a gente fica só nessa mesmo, crenças, sensações e múltiplos usos das energias da fruta, que sem dúvida é porreta mesmo. Mas lá, a coisa ainda vai acabar dando polícia, vai vendendo a imagem do Brasil curandeiro, e quem sabe, ainda não vai aparecer alguém requerendo patente sobre a fruta, como já fizeram no passado com o cupuaçu.

    Vamos lá gente, vamos comer mais açaí prá combater o comércio desafinado destes gringos do trambique!

    O mais divertido blog de gastronomia até agora

    daviddejorge

    Ontem recebi um email de uma amiga catalana, que é amante e expert da gastronomia, e que me recomendava o link do novo blog de David de Jorge, um chef basco que é ligado às mídias, mas que não é celebrity, talvez por ser muito autêntico, e que tem uma veia humorística saltante. 

    David é autor de 2 livros, “A Cocinar: Las Mil y Una Recetas para la Cocina de Casa” e “Porca Memória – Recordações Gastronômicas de um Par de Suínos” (os dois vc acha no original espanhol aqui, e o segundo em português aqui, com uma matéria a respeito aqui). E segundo li no Luiz Horta ele já foi eleito o melhor da Espanha (não diz quando e nem em que situação, não captei se é sério ou piada também, mas deve ser piada porque está entre aspas (?)), tendo também trabalhado com Andoni Luiz e com o Berasategui em criações e afins.

    Enfim, mas a coisa é que seu blog é muito interessante e tem um espírito ‘gordinho basco’ tremendo, um humor refinado e escrachado ao mesmo tempo, e com colaboradores à altura. Vale a pena uma visita e um bookmark por lá. Aqui na lista de recomendados ele já entrou. Divirta-se!

    Cafeinômanos, estais salvos!

    Adorei esta invenção, sensacional!! Achei no Daily Olive

    Gastronomia sensual no paraíso

    chef-heaven-mariaUm programa criado recentemente e apresentado na TV de Santa Catarina ainda vai pular a cerca dos estados e virar nacional, é a minha aposta. O Heaven’s Kitchen, apresentado pela bela chef Heaven Maria, encontrou uma fórmula óbvia mas eficiente, a narrativa da sensualidade e erotismo na gastronomia. Com temas sobre ingredientes afrodisíacos (que na verdade quase todos tem alguma lenda afrodisíaca), sedução pela comida, muitas flores em sua cozinha e decotes provocantes, mas sem perder a linha da elegância “brilhante”, Heaven Maria é muito didática em suas receitas e tem charme para seduzir homens e mulheres, apoiado em seus grandes olhos expressivos e seu sotaque adquirido em longas viagens ao exterior.

    Filha de português com francesa, a chef aprendeu culinária na Europa e comandou o bistrô Le Bon Vivant, dos pais, em Florianópolis, onde vivem atualmente. Veja toda sua história aqui no site da Guta Chaves.

    Uma comparação:

    Sempre achei o programas da Nigella de uma sensualidade tremenda. Claro que isto é em função da sua beleza cativante e seu charme pessoal, mas muito também em função do clima geral clean e ‘cozy’ do programa e principalmente das inúmeras tomadas em close. A Nigella não usa decotes provocantes e não parece que está te comendo com os olhos.

    Já a Heaven, que também é bela, simpática e cativante, talvez precise de mais uns meses na TV e convivência com os descolados (como a Nigella) para se tornar mais assim, digamos, “power”. Por exemplo, suas tiradinhas por conta própria são ótimas, mas ainda um pouco tímidas na câmera. Porém ela está no caminho certo. A diferença é que seu programa declara mais alto “quero te seduzir”, e isto muitas vezes pode ser meio forçado numa relação de sedução. Como aprendemos nas nossas desventuras amorosas, é muito importante manter também um ar meio blazé de quem está seguro de si e não demonstrar muita sede ao pote. Por isto o programa tem umas brejerices de pétalas de rosa e perfumes no ar, que às vezes até funcionam, mas que são muito estereotipadas, hiper românticas, e que se passar do ponto viram bregas mesmo (como a primeira música de fundo – mas a da abertura é ótima). Mas me pareceu que ela sabe muito bem disso e que pouco a pouco não vai mais deixar a direção do programa exagerar. Ok, isto é tudo que tinha para falar de não positivo, mas de positivo tem muito. Além do que já falei acima, ela ainda tem o dom natural de segurar o programa com um diálogo sempre crescente com a audiência enquanto segue cozinhando direitinho. E olha, tem muito chef famoso por aí que tenta e não consegue manter esta tranquilidade, acabam se enrolando no ritmo do script ou se enrolando nas panelas – e nem disfarçam na edição! Já a Heaven não, ela não se enrola e ainda mantém a força.

    Tudo bem, chega de papo, dêem uma olhada aqui em uma parte de um dos episódios. Neste ela está preparando uma salada grega com o seu toque bem legal…

    Tem mais vídeos dela aqui.

    Boa sorte Heaven! Aliás, que nome sedutor não? Não tem como não dar certo!

    .

    O impacto do fechamento temporário do The Fat Duck

    Só um comentário de algo que me chamou a atenção…

    O segundo melhor restaurante do mundo pela Restaurant Magazine, o The Fat Duck do celebrity chef Heston Blumenthal, que fica em Berkshire nos arredores de Londres, foi fechado há uma semana por contaminação, e vai reabrir – leia mais aqui (em inglês), e aqui (em português). Chegaram a 400 as notificações de pessoas que de algum modo passaram mal depois de comer lá, na maioria diarréias ou vômitos, mas sem nenhum caso grave registrado.

    As autoridades do assunto lá na Inglaterra estão fazendo todas as investigações para detectar qual foi o problema, sem descartar a possibilidade de sabotagem. O chef está obviamente fazendo tudo para que se encontrem as causas e já se prontificou a dar apoio à qualquer um que tenha passado mal depois de comer por lá. Tudo correndo nos conformes.

    A questão é que uma semana de fechamento já gerou um prejuízo de cerca de 100 mil libras esterlinas à localidade de Berkshire, que são cerca de 337 mil reais. Este é o faturamento estimado das 500 reservas que até agora foram canceladas no restaurante. Parte deste dinheiro seria certamente gasta na localidade pelos funcionários do restaurante e outra parte investida nos produtos e insumos do restaurante comprados por lá, sem contar os impostos locais.  Quanta gente lá não vai sentir a falta de sua pequena parcela neste montante semanal para seus gastos e atividades cotidianas.

    Isto mostra a importância do impacto econômico dos restaurantes na sua região, e a importância de se buscar a sustentabilidade na cadeia produtiva da gastronomia. Quando um elo da cadeia é extremamente protagonista, ele não pode falhar. Os grandes e mais famosos restaurantes geram um grande impacto econômico entre seus fornecedores e nas suas localidades, e têm que ter consciência disto. Claro que acidentes de percurso como estes ocorrem, e neste caso tenho certeza que o The Fat Duck é primoroso quanto à sua higiene, assim como a maioria dos bons restaurantes no mundo, mas quando algo assim ocorre muita gente sofre com isto. Não dá prá se ignorar.

    O chef Blumenthal

    O chef Blumenthal

    Fast-foods deveriam suspender a venda de lanches com brinquedos?

    hamburger-toy1Saiu hoje no Estadão uma enquete com este título: “Redes de fast food devem suspender a venda de lanches com brinquedos?”, e duas opções de resposta: sim ou não.

    Até o momento da publicação deste post o resultado estava em 60% sim e 40% não.

    Parece que uma resposta direta para o sim seria a coisa mais certa e ética, certo? Ok, para muitos sim. Mas para mim parece meio óbvio que a resposta é NÃO.

    Deixar de oferecer brindes é uma atitude contra o marketing (no caso o promocional), ou seja, é atacar o conceito central do mercado, o mesmo que nos dá conforto de escolhas, nos dá qualidade por concorrência, diversidade de ofertas, o teu carro na garagem, a tua bolsa de marca ou o teu último modelo de celular (e que também tem seus mega-desequilíbrios sociais, sei disso, mas por favor, marxismo na prática não rola, certo?). Concordo que proibições para ações de marketing são válidas para produtos que fazem mal por si só, como é o caso do cigarro, do álcool, e de qualquer produto intrinsecamente danoso. E mesmo eu sendo a favor da reeducação pela saúde alimentar, e principalmente para as crianças (que isto fique claro aqui), não vejo razão para uma proibição deste tipo.

    O problema não está aí, e mais uma vez ninguém vai a fundo no problema enquanto todos resolvem atacar o lado mais fácil e superficial, porém ineficiente.

    O problema da saúde alimentar, principalmente no caso dos fast-foods, é que não há nenhum órgão, lei ou entidade que regularize o aspecto nutricional dos alimentos. Não tem nada que obrigue os alimentos industrializados a serem saudáveis e nutritivos!! Explico: se você passar dias só tomando leite, isto vai te fazer mal, se passar dias só bebendo água, isto vai te fazer mal, se passar dias só comendo alface, isto vai te fazer muito mal, e se passar dias só comendo fast-food, isto vai te fazer mal também. Tem que equilibrar.

    Mas não é só isto…

    No Brasil quem regula a qualidade dos alimentos é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que tem várias formas de fazer isto, uma delas é aquele selo de qualidade S.I.F. (Serviço de Inspeção Federal) que a gente vê nos produtos de origem animal. Fantástico. Teoricamente eles checam todos os alimentos de origem animal que consumimos para ver se não estão contaminados, se têm as bactérias x, y ou z, se estão estragados, se provêm de lotes com problema, etc, etc, para ver se determinado alimento pode causar alguma doença ou problemas ao comê-lo. Isto está muito bom e garante que se você comer, por exemplo, um hambúrguer, você não vai passar mal por isto. Pode comer à vontade. Mas se você decidir comer um pouco da grama do teu jardim e ela estiver limpinha, tudo bem, tão pouco vai te fazer mal algum.

    Mas da mesma forma no Brasil não tem ninguém que obrigue que os hambúrgueres sejam nutritivos e balanceados, MESMO SABENDO QUE AS CRIANÇAS ADORAM COMER HAMBÚRGUERES!! Não tem ninguém que fiscalize o valor nutritivo dos alimentos, não há regras para isto. Obrigam a escrever nas embalagens todas as informações, mas não obrigam que estas tabelas de nutrientes dos produtos industrializados e de consumo em massa, como é o caso dos fast-foods, sejam equilibradas segundo as nossas necessidades. Basta que estes alimentos sejam comestíveis e que não estejam contaminados, e tá liberado, pode vender à vontade.

    Devem é obrigar as redes de fast-food e a indústria a venderem alimentos balanceados e realmente nutritivos. Mas como a indústria vai fazer isto? Problema deles, têm jeito sim e eles teriam que ser obrigados a fazê-lo. Custa mais caro para eles, vai reduzir o lucro e dar mais trabalho. Ótimo, esta á a base do marketing e do mercado que eles precisam para viver, concorrência e inteligência.

    Mas aí, ao invés disto, se realmente for proibida a promoção com brindes para crianças nas redes de fast-foods, tudo bem, eles vão inventar outra forma de promoção, as agências são incrivelmente inteligentes e competentes para isto, e as redes vão continuar vendendo porcaria aos montes para as crianças e adultos do país (como estas coisas estranhas que colocam no meio dos hambúrgueres), e que por sua vez vão continuar engordando e morrendo de complicações derivadas disto. E mais dinheiro será gasto na saúde pública.

    Pois é, concorrência e inteligência é o que também está faltando nos (des) governos deste país. E tá muito difícil deles fazerem algo realmente bom e eficiente pro nosso povo brasileiro, não tá não?

    E no Zimbabwe…

    O mundo inteiro está em crise, mas dá uma olhada nesta foto…

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    Achei no Look and Taste, um blog muito interessante aliás, que diz que o Zimbabwe sempre foi um país que alimentou boa parte do continente africano, mas que de 10 anos prá cá sua produção de alimentos desapareceu do mapa. O país é governado pelo ditador Robert Mugabe, que está no poder desde 1980, e que afirma que não vai largar o filé. Provavelmente por lá só ele deve comer hoje em dia. 

    Mais sobre o Zimbabwe você vê aqui.

    Chefs desistem das estrelas pelo stress de mantê-las

    Saiu ontem a centésima edição do guia Michelin, a francesa, e isto está em todas as mídias de gastronomia hoje. Mas o mais interessante é que pela sexta vez um chef desistiu das estrelas por causa do stress de tocar um restaurante 3 estrelas sob os critérios do Michelin.

    Desta vez o chef Marc Veyrat, de 58 anos, decidiu parar de tocar pessoalmente o restaurante Auberge de l”Eridan, em Annecy, na Savóia Francesa, em meio aos Alpes. Ele disse que fisicamente já fez o máximo que podia fazer e culpou o stress de ter que manter a coisa no ponto máximo o tempo todo. O restaurante continua funcionando mas agora mais light e despreocupado. Mas espertamente ele anunciou sua decisão tarde demais para o guia retirá-lo da impressão desta edição, e ainda está lá com suas 3 estrelas em 2009.

    Em novembro do ano passado o chef Olivier Roellinger, de 53 anos, resolveu fechar seu 3 estrelas Maisons de Bricourt, no pequeno porto de Cancale na Bretanha, dizendo que fisicamente não podia mais continuar cozinhando, “minhas pernas não me seguram mais”. Dizem todos que o problema não foi físico, mas a pressão que ele sentia todo dia para manter a alta qualidade.

    Ambos chefs pretendem continuar na cozinha, mas tocando restaurantes mais simples e descontraídos.

    Outros 4 chefs já desistiram anteriormente das estrelas Michelin: Joel Robuchon em 1996, Alain Senderens em 2005, Antoine Westermann em 2006, e o mais dramático, Bernard Loiseau, que escolheu o caminho mais definitivo, suicidando-se em 2003 quando chegaram-lhe rumores que na próxima edição seu restaurante perderia a terceira estrela. Este com certeza estava estressado mesmo. Lembro que esta notícia saiu no mundo inteiro.

    todos

    O crítico do Le Figaro, François Simon, disse que o stress é enorme, “é como se todo dia você tivesse que acordar de manhã e pilotar um jato de Londres a Los Angeles. Você sempre tem que estar impecável, e chega um ponto em que você não tem mais a energia, a felicidade e a excitação para fazê-lo”. 

    Se somarmos isto com as críticas que o Michelin vem recebendo há alguns anos, de não acompanhar as mudanças no mercado da gastronomia – como a multiplicação dos bistrôs de qualidade pelas grandes capitais, a sua criação de guias para cidades não tão reconhecidas pela gastronomia como Macau (e São Paulo não tem a sua edição), e desta vez o fato deles terem dado a terceira estrela ao restaurante do Hotel Bristol em Paris reconhecidamente porque o presidente Sarkozy costuma almoçar por lá, chegamos à conclusão que sim, alguma coisa de muito importante está mudando no tradicional círculo da elite gastronômica mundial.

    Talvez seja por inclinação pessoal minha, mas não deixo de pensar que a web tem também algo a ver com isto, ainda que não pela decisão dos chefs, mas pelas mudanças gerais em critérios e processos. Afinal, toda esta horizontalização social em comunidades gastronômicas espalhadas pelo planeta e a capacidade de produzir informação de alta credibilidade (por serem opiniões pessoais) das novas mídias 2.0, tendem a democratizar todos os processos e a reforçar transparências que nunca foram muito desejadas pelas instituições, como é o caso do guia Michelin. Ok, isto ainda pode ser um fenômeno leve, mas os efeitos estão por aí. Além disso, os interesses em dar estrelas para este ou aquele restaurante por questões de política ou de relacionamento do grupo acabam por minar um pouco a credibilidade destas estrelas. E ainda também, quantos dos profissionais querem de verdade, lá no seu íntimo mesmo, serem os melhores? Por que teriam eles que serem os melhores e não simplesmente bons profissionais fazendo o que gostam?

    Claro que é mais fácil abandonar tudo e ir montar uma pousada na praia quando você já alcançou o topo e provavelmente vai viver destas memórias, que lhe trarão também recursos, mas este não é o unico caminho, nem para os chefs e nem para nós, simples mortais que adoramos comer. E estes chefs que deixaram suas estrelas, mais os que provavelmente ainda vão deixar no futuro próximo, confirmam que o guia Michelin ainda vai ter que se adaptar às diferentes faces da realidade da gastronomia nos dias atuais. Diferentes faces da nova sociedade.

    Será que quando São Paulo tiver uma edição do Michelin ele já não vai valer mais nada?

    Tanto stress assim, eu heim…

     

    Os dados dos chefs e as frases citadas eu li no Telegraph.