Procreative Dinner: food+science+art breaking big taboos

Dêem uma olhada nisto, com calma. Primeiro o vídeo:

 

É um happening-jantar realizado em Geneva por Prune Nourry e que permeia o mundo da arte, da ciência e da gastronomia. Ele convidou o chef Serge Labrosse e mais um cientista especializado e juntou a sua arte para preparar um “jantar procreativo” com a idéia de buscar o “bebê à la carte”. Encenado através de um processo clínico, com todas as técnicas da procriação assistida, este jantar parece um tanto quanto bizarro. Me digam se o vídeo não causa algumas sensações estranhas, como quando misturam coquetéis de esperma com óvulos deliciosamente saboreados.

Prune mexe aqui com o futuro e com as questões perfurantes que teremos que lidar, trazidas pelo avanço das biotecnologias: os costumes, as éticas e a moral. Quer queiram ou não tem um monte de cientista lá fora tentando encontrar a fórmula para criar o ser humano perfeito, assim como tem um monte de jovem chef tentando ser o melhor de todos. É normal.

O que não é normal aqui, e que foi bem alcançado pelo artista, é a sensação da antropofagia, da elite que se come só porque pode fazer isso, da comida, sexo e vida/morte. É como comer em um hospital, só médico consegue e porque é obrigado, mas ninguém gosta.

Enfim, este happening-jantar é esteticamente bonito, cientificamente interessante, e pelas caras dos comensais-papais a comida parece que estava saborosa. Mas de qualquer forma a coisa aqui pega pelo estômago, não pega?

E você, já está fazendo sua parte?

A culinária como arma de guerra!

Sim, isto mesmo, e o diretor eslovaco Peter Kerekes foi atrás exatamente das histórias das cozinhas estratégicas de diversas guerras, desde a segunda mundial, passando pela Tchetchenia e a guerra dos Balcãs, baseando sua história em 11 receitas que alimentaram milhares de soldados, além de, principalmente, elevar a sua moral através de pratos do orgulho nacional.

Daí saiu o filme Cooking History, que foi lançado no Festival de Cinema de Sarajevo, neste mês.  O tom irreverente do filme mostra as diferenças entre russos, alemães, franceses, croatas, sérvios e demais europeus que se envolveram nas guerras retratadas, suas diferentes visões sobre o papel das suas comidas na guerra, e diversos deliciosos recheios com as histórias dos cozinheiros do front.

Esta foi uma dica de minha antenada amiga autora do blog Popkitchen.

Além dos moedores de carne e das rosadas faces dos eslavos festivos até na guerra, dá uma olhada na história da cozinha que explodiu em goulash no trailer abaixo… é hilária:)…

…e é a cozinha como você nunca viu!

PETA assusta criancinhas

O que é pior? Deixar seu filho comer um McLanche Feliz ou dar a ele um kit chamado McCruelty’s com pintinhos e vaquinhas sangrando e um Ronald McDonald ameaçando com um machado sujos de sangue?

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Este kit macabro, o Unhappy Meal, aqui na foto, foi distribuído para as crianças em Albany-NY pela PETA – People for the Etyhical Treatment of Animals (tá no Media Bistro). O PETA é aquela mesma ong que costuma atacar com spray quem usa casaco de pele e invadir as passarelas da alta moda com cartazes em mão.

A iniciativa era para salvar galinhas e vaquinhas americanas. Pode? Paris Hilton deve ter adorado…

Que mal gosto não? Porque assustar as criancinhas com estes animaizinhos sangrentos? Que deixem elas e seus pais comerem onde quiser… principalmente porque, afinal, não dizem que as galinhas do MacDonalds são criadas sem osso?:)


A arte argumenta a favor do fumar

Descobri o blog Miopia depois que recebi a visita de seu autor Guilherme aqui no digeat, agora há pouco, e gostei.

Eu já parei de fumar, porque sim, faz mal mesmo, e agora fico só nuns charutos e bem de vez em quando, mas lá no Miopia encontrei poesia e inteligência na defesa do ato de fumar. Tem argumentos bons para todos os lados, queiram ou não.

Vi pessoalmente como a proibição de fumar nos locais públicos fechados na Europa funciona bem, e que os bares e restaurantes não mais cheiram a porões úmidos e defumados, porém ficaram também muito mais chatos, e no verão estão vazios – todos a fumar do lado de fora.

Agora este video aqui abaixo, que achei neste blog, me fez pensar na gigantesca importância do cigarro no mundo das artes. Engrosso o coro dos artistas e grito: liberem o cigarro nos ambientes de arte, tal como legitimamente reclamam agora os artistas de teatro sobre a nova lei. E eu apoio os artistas incondicionalmente: na arte não há limítes da moral, se a morte é filosofia, o cigarro também é.

E se proibissem também o medo, a dor ou as angústias, quão belos e vitais são estes terríveis males?

64% a favor da lei antifumo e 36% contra

Do total, 47% não fuma e quer a lei (são os que querem preservar seu direito de não ser fumante passivo),17% fuma e quer a lei (devem ser os que querem parar de fumar), do outro lado 24% não fuma e não quer a lei (ou seja são os ‘cada um na sua’ – que dão o direito ao fumante de fazer como quiser),  e 12% fuma e quer continuar fumando nos estabelecimentos públicos de SP – os que permitam.

Este é o resultado de 2 meses e meio de pesquisa aqui no blog. 34 pessoas votaram. Só? É, mas representam um segmento ativo que costuma tomar posição e defender, promover, etc. Pelo menos na teoria. E claro esta pesquisa era uma pesquisa simples, sem cortes a não ser ‘leitores do blog’.

Mas chega de pesquisas, por enquanto.

abs..

Almoço da ABG

Alguns membros da Academia Brasileira de Gastronomia nos reunimos no último dia 17/06 para um almoço informal no restaurante Capim Santo em São Paulo, da chef Morena Leite (que acaba de ter uma filha -Parabéns Morena!), para conversar sobre o futuro da ABG.

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A ABG é uma entidade cultural e apolítica, formada por apreciadores e entendedores da culinária brasileira, não profissionais de cozinha nem empresários de restaurantes, que tem o único objetivo de preservar e promover a cultura gastronômica brasileira e suas características exclusivas e regionais. Somos membros da Academia Internacional de Gastronomia e assim como as demais Academias de diversos países temos diversos projetos de interesse para a gastronomia brasileira, que serão realizados a partir de 2010. Neste momento estamos em busca de apoios institucionais para a viabilização de uma série de atividades, que em seu tempo serão relatadas aqui e na mídia em geral.

E no fim de setembro teremos mais uma reunião internacional, desta vez na cidade de Sevilha durante o evento Andalucia Sabor, para assinar a criação da Academia Iberoamericana de Gastronomia junto às entidades irmãs dos países desta região, entidade que terá a finalidade de aproximar as ações realizadas em nosso continente com as Academias européias, pois estas, por serem mais antigas, têm uma maior presença em seus países.

Tendo mais interesse sobre a ABG nosso email é abgastronomia@gmail.com. Em breve postarei mais notícias sobre a ABG por aqui.

Por que os italianos gostam de falar de comida?

Todo mundo sabe que a Itália e a França são os países da gastronomia por excelência, e que a Espanha atualmente não está muito atrás no quesito ‘exportação de cultura gastronômica”. E todo mundo sabe também que todos os países, sem exceção, têm suas culinárias típicas tão importantes para a sua cultura regional e nacional.

Mas é impressionante como os italianos têm na gastronomia um motivo de conversa a toda hora, em qualquer situação. De fato, na Itália as conversas sempre giram em torno de gastronomia, futebol, política, e por último na lista a igreja católica. Todos os outros assuntos vêm sempre depois. Muito mais do que na França.

Com o mesmo entusiasmo que torcem pelo Roma, Milan, Juventus ou Fiorentina, e que xingam o Berlusconi mesmo se votaram nele, a forma de preparar a polenta, as propriedades da pasta povera ou das pastieras, e a caponata da sua região, são temas de briga, discussões e ferrenho orgulho cidadão. A impressão que se tem é que mesmo antes de se aprender a somar 2+2 ou a localizar Roma no mapa as crianças italianas já sabem o que fazer com farinha, ovos e leite. Faça o teste, sente para almoçar ou jantar com mais de um italiano ao mesmo tempo e se em 5 minutos eles não tiverem trocado alguma receita ou feito uma comparação sobre o que estão comendo e como o mesmo prato é muito melhor preparado no vilarejo deles, é porque já estiveram discutindo isto um pouco antes durante o aperitivo. Pode apostar, não falha nunca.

Mas de onde vem isto? Como isto nasceu e por quê?

capa livro italianiA ensaista russa Elena Kostioukovitch, que é professora na Università degli Studi di Milano, foi pesquisar, e escreveu um excelente e completo livro sobre a gastronomia na Itália e seus diversos hábitos e costumes regionais, justificando a febre italiana por falar de comida. “Perché agli italiani piace parlare del cibo” é uma viagem por cada minuciosa qualidade gastrononômica de todos os pedacinhos da Itália, e a cada capítulo que escreve sobre uma região, escreve outro relacionando e vinculando a culinária local com os diversos hábitos gastronômicos universais. Fala das festas gastronômicas, dos ristoranti, dos pelegrinos, da democracia, da pizza, da felicidade, dos procedimentos, do óleo de oliva, risotos, etc etc etc, além da detalhadíssima culinária de cada uma das regiões da bota. É o livro mais completo sobre a gastronomia italiana acessível para nós mortais não estudiosos do assunto. Recomendo com 5 estrelinhas piscando ardentemente. Infelizmente acho que ainda não foi traduzido para o português.

Aqui na Livraria Cultura só tem em inglês, e aqui no Internet Book Shop tem o original em italiano e entregam no Brasil.

E aqui, a prova!! Numa engraçada sátira a eles mesmos, o ótimo Fiorello, famosíssimo TV star na Itália hoje em dia, leva a gastronomia à dramática efervescência da canzone napoletana:

Meryl Streep interpreta Julia Child no cinema

Será lançado no próximo mês de agosto nos EUA o filme “Julie and Julia“, escrito e dirigido por Nora Ephron e com Meryl Streep no papel de Julia Child, a mais famosa apresentadora de culinária da TV americana dos anos 60, 70 e 80, que teve uma história interessante digna de cinema, escreveu vários livros, e que depois de sua morte descobriu-se que antes de cozinheira na TV ela tinha sido também espiã americana no pós-guerra (sobre Julia Child leia um pouco mais no meu post “Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?“).

Julia Child e Meryl Streep

Julia Child e Meryl Streep

O filme é uma história adaptada do cruzamento de dois livros: My Life in France, que é a autobiografia de Julia Child publicada após sua morte em 2004, e o livro homônimo Julie & Julia, escrito em 2005 por Julie Powell, uma ex-secretária americana que aos 30 anos de idade se sentia perdida e resolveu que queria mudar de vida (como ocorreu com Julia Child antes de se tornar apresentadora de TV).

Para isto em 2002 Julie bolou um projeto, decidiu que em 365 dias encararia em sua pequena cozinha as 524 receitas do livro de Child Mastering the Art of French Cooking (um best seller nos EUA publicado em dois volumes – 1961 e 1970 – e que introduziu na classe média americana à noção de que cozinhar bem era algo que deveria ser seguido, e seguido pelas técnicas básicas francesas).

Enquanto se aventurava preparando cada uma das receitas do livro de Julia Child, Julie Powell escrevia um blog, que 2 anos e meio mais tarde viraria seu livro, contando suas desventuras pela sua cozinha apertada. No fundo a cozinha apertada poderia ser também a sua vida. E esta possibilidade de virada na vida seguindo aquilo que mais se sabe e deseja fazer, é do que trata o filme. No trailer que você vê abaixo Julia Child se questiona “Eu não deveria encontrar alguma coisa para fazer?”, seu amigo lhe pergunta: “E o que é que você realmente gosta de fazer?”, e ela “Comer!”.

Por gostar de comer Child teve uma idéia e se tornou a cozinheira número 1 da América por vários anos, e por seguir suas receitas Powell teve uma idéia, escreveu um blog e vendeu milhares de livros pelo mundo afora. E agora tudo isto chega às telas de cinema. Claro que vou assistir.

Todo dia era dia de índio…

foto: fredpacifico no flickrfoto: fredpacifico no flickr

Entre a teoria do mito modernista (veja em post anterior) e a história da culinária brasileira formada pela tríade cultural dos índios, dos portugueses e dos africanos, inegável é a força da cultura indígena na nossa culinária. Até mesmo quando comemos pipoca no cinema.

Então aqui, prá não passar em branco, minha homenagem à nação indígena brasileira, seus vários povos, e sua rica cultura.

Que saibamos preservá-la!

E seguem 4 links muito interessantes sobre o índio e a culinária indígena:

Aqui você lê um interessante artigo do papel da cultura indígena na formação da gastronomia brasileira, de Mártin Cesar Tempass, com análises feitas sobre textos de Gilberto Freyre e Câmara Cascudo.

Aqui você lê muito sobre a culinária indígena, não identifica o autor, mas o texto é bem completo.

Aqui você tem 3 receitas indígenas: beiju com moqueado, moqueca de banana picante e coelho ietyca.

E aqui você tem uma lista com 235 povos indígenas brasileiros, com os estados onde se localizam e sua população atual.

E aqui abaixo você se delicia com nosso querido Jorge Benjor e um vídeo-homenagem bem legal que achei, com Curumin Chama Cunhatã:

 

Dia do Índio, comemore todo dia!



Um bom marketing gastronômico e o mito modernista

Aqui mais uma sobre o restaurante Dalva e Dito, desta vez no Financial Times:

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Todos vocês leram a enxurrada de críticas ao novo restaurante do Alex Atala, o Dalva e Dito, em São Paulo, nos últimos 2 meses, em toda a mídia, certo? Algumas críticas construtivas, positivas ou negativas, mas a maioria trazia um resumo implícito simplificado: “olha ele lá com todo seu marketing, coisa boa não deve ser”. 

Uma em especial chamou muito a atenção, que foi a crítica da Veja SP assinada pelo Arnaldo Lorençato. Muitos gostaram e entraram na linha “vejinha classe média”, do tipo seja ‘in’ – seja igual, muitos outros a criticaram pela sua implacabilidade estomacal com um restaurante recém aberto, e outros ainda o acusaram de oportunismo midiático ao criticar na mass-media o mais famoso chef do país.  A questão é que esta crítica não trouxe aspectos positivos do restaurante, que sim existem, e muitos, e os tantos aspectos negativos citados certamente podem ser relativizados. O pouco que conheço pessoalmente do Arnaldo e o muito que conheço de suas críticas são suficientes para conhecer a sua intelectualidade gastronômica e seu claro entendimento profissional da crítica, que eu admiro, mas pessoalmente não concordo com o tom desta crítica na Veja pelo fato dela não ter aberto espaço para a consideração de que o Dalva e Dito é a primeira iniciativa para trazer a realidade culinária brasileira doméstica ao círculo elitário da alta gastronomia, um risco e tanto que o Atala assumiu, e que só faz bem para o desenvolvimento da maturidade da nossa cozinha e para o reconhecimento do que realmente comemos no dia-a-dia.

Mas sobre este assunto, o melhor comentário é sem sombra de dúvida o que fez o nosso sociólogo da cozinha brasileira Carlos Alberto Dória em seu blog e-Boca Livre, onde achei eco – leia aqui – mas leia mesmo pois seu texto é muito esclarecedor para entender este fato (aqui abaixo copio um trecho).

Então, como acredito que tanto fato quanto fenômeno estão muitíssimo bem explicados pelo Dória, e o assunto já envelheceu na mídia, eu aqui só vim mostrar a crítica do Dalva e Dito feita pelo Charles Campion do Financial Times.

Ele tece elogios à culinária do restaurante, e assim à culinária brasileira, retratando o desafio de mostrar ao mundo o que é que o Brasil come em casa. E levou às páginas de um dos mais importantes jornais de economia do planeta o fato de aqui termos ingredientes fantásticos e que valem muito conhecer e explorar. E ele ainda concorda com o próprio Atala quando o chef diz que o Brasil ainda estará entre os líderes mundiais em gastronomia nos próximos anos. 

Pois é, convenhamos, além dos vários chefs que muitas vezes gastam dinheiro de seu próprio bolso para levar nossa culinária à vitrine do mundo em eventos no exterior (minhas sinceras homenagens à Mara Salles, à Morena Leite, à Elzinha Nunes, à Ana Luiza Trajano e à tantos outros), qual chef tem no Brasil o poder de atrair a boa opinião internacional sobre nossa cozinha sem nem mesmo ter que sair de casa, senão o Atala? E isto é sim marketing, óbvio e claro. Parabéns ao talento e ao marketing do Atala. Ainda bem que tem gente fazendo isto com propriedade, pois sem o marketing gastronômico ainda estaríamos comendo filé a parmigiana em restaurantes “internacionais” em São Paulo e no Rio e achando isto o melhor dos mundos.

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Não resisti, e copio aqui abaixo o melhor trecho explicativo do texto do Dória, tirado de seu blog no link acima, vejam que genial, não pela questão do critico Lorençato, mas pela sua visão do mito modernista na gastronomia brasileira:

“Lorençato é um dos melhores críticos gastronômicos do Brasil, desde os seus remotos escritos na Gazeta Mercantil. Um raro intelectual da culinária, como atesta o seu recente – e excelente – prefácio ao livro de Katarzyna J. Cwiertka, Moderna Cozinha Japonesa (Senac, 2008). Mas, como muitos, talvez ainda esteja demasiado tributário do mito modernista da cozinha brasileira: somos a mestiçagem das heranças coloniais portuguesas, indígenas e negras. E, por apego a esse mito, nos sugere que Dalva & Dito não “vale quanto pesa”, pois nele o Brasil é “coadjuvante”. Ora, o mito foi tecido a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, especialmente pela aplicação culinária que lhe deram depois Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Sua utilidade para os negócios da indústria do turismo é mais do que óbvia, pois esta aterrizou as diferentes “influências” em vários destinos turísticos (vai-se ao Rio Grande do Sul para comer churrasco; a Salvador para comer acarajé; a Belém para comer a culinária de origem indígena e assim por diante), criando um mosaico que justifica a deambulação pelo país, “nas asas da Panair”. No entanto, o valor explicativo do mito para a gastronomia é nulo. 

Como mostrou a antropóloga Lívia Barbosa [“Feijão com arroz e arroz com feijão. O Brasil no prato dos brasileiros”. Horizontes Antropológicos, ano 13, n. 28,jul/dez de 2007], essas comidas “regionais” não compõem a dieta doméstica do brasileiro. A pesquisa que ela fez nas regiões metropolitanas mostra que, no almoço, “94% […] declararam comer arroz e feijão, acompanhados de algum tipo de carne vermelha (69%), galinha (42%), salada (30%), macarrão (24%), verduras em geral (22 % ) e legumes (18%). O consumo de arroz fica acima de 90% em todos os grupos sociais”. De 130 itens alimentares citados pelos pesquisados, “apenas nove podem ser considerados regionais (macacheira, batata doce, inhame, arroz de carreteiro, polpeta, polenta, moqueca de peixe, cuscuz, baião de dois e caruru) todos com menos de 0,5 %”.

No geral, “o consumo dos itens regionais é muito baixo, mesmo nas próprias regiões. Tapioca e baião de dois, por exemplo, aparecem com 1,4% e 5,4% de consumo em Fortaleza, respectivamente; polenta 4,1% em Porto Alegre e 0.3% em São Paulo. A cidade com maior consumo de itens relacionados a sua cozinha tradicional é Recife, com 57,1% para o cuscuz, 10,2% para o queijo de coalho, 55% para o inhame, 36,7% para a macacheira e 6,3% para a batata doce”.

Está claro, portanto, que os “papéis coadjuvantes” que Lorençato atribui a “receitas e ingredientes nacionais” não é um erro de escolha do cardápio de Dalva & Dito mas um dado da realidade alimentar brasileira.  Por que um “brasileirão” deveria trabalhar para a manutenção de um mito que, com um século de existência, pouco serve gastronomicamente, em vez de partir do terreno mais difícil e verdadeiro, como são os hábitos domésticos calcados no arroz-com-feijão?

Tudo o que se come em Dalva & Dito é brasileiro no sentido mais arraigado da palavra e das práticas alimentares reais. Assim, só decepciona os prisioneiros da mitologia modernista. “

Muito interessante, não?

Açaí faz sucesso nos EUA com marketing trambiqueiro

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Açaí é brasileiro (foto Breno Peck no Flickr)

Matéria publicada na quarta-feira 11 no NYT e assinada por Abby Ellin, mostra o sucesso e o drama do marketing abusivo sobre o açaí nos EUA.

Nosso querido Açaí está fazendo um sucesso tremendo por lá. Diz a matéria que em 2008 foram introduzidos e licenciados nos EUA 33 novos produtos à base de açaí, contra apenas 4 em 2004, e que a venda de produtos à base de açaí alcançou a marca de 106 milhões de dólares no ano passado (imagino qual a ínfima porção desta grana é a parte dos produtores de açaí no Brasil perdido do norte). São produtos desde alimentícios até estéticos e rejuvenescedores, e é aí que está o problema.

produtos-de-acai2Os produtos à base de açaí estão sendo vendidos principalmente pela web, e prometidos como produtos “milagrosos”, como “a fruta misteriosa que vem da amazônia” e que vai fazer você emagrecer, rejuvenescer, e até remover suas rugas. E estão também usando desautorizadamente o nome de famosos para testemunhar e assinar os produtos, como a Oprah Winfrey. Mas agora a mídia e autoridades começaram a perceber que não há pesquisas que comprovem nada. Claro, não há mesmo. Mas um tal de Dr. Schauss afirma que o açaí é um excelente anti-oxidante e baseia-se em uma pesquisa que ele fez com… 12 pessoas.

Ou seja, vieram uns americanos prá cá, levaram a fruta prá lá, outros seguiram e fizeram o mesmo, e aí armaram uma fúria marketeira que a transformou em fruta milagrosa ao ampliar e exagerar o conceito de açaí que nós mesmos temos, e começaram a vender seus produtos pelo mesmo sistema que vendem as bombas para aumentar seus pênis ou as pilulas de viagra falsificadas. Enfim, na terra do Tio Sam o açaí virou trambique de malandro americano.

Na verdade a única coisa que se sabe sobre o açaí é o nosso hábito brasileiro com a fruta, que em sua maioria, nós aqui comemos açaí como algo que “substitui uma refeição”. Aqui no escritório mesmo tô cansado de ver a moçada que de vez em quando ao invés de “bater um rango, batem um açaí”. E tenho certeza que no norte e nordeste do Brasil, onde mais se consome a fruta, o açaí já deve ter “curado muita gente” e “salvado muito pai d’égua na hora da cama”, além disso mata a fome que é uma beleza.

Mas aqui a gente fica só nessa mesmo, crenças, sensações e múltiplos usos das energias da fruta, que sem dúvida é porreta mesmo. Mas lá, a coisa ainda vai acabar dando polícia, vai vendendo a imagem do Brasil curandeiro, e quem sabe, ainda não vai aparecer alguém requerendo patente sobre a fruta, como já fizeram no passado com o cupuaçu.

Vamos lá gente, vamos comer mais açaí prá combater o comércio desafinado destes gringos do trambique!

E de volta à brasilidade, é Carnaval…

…e aí não tem jeito, prá quem gosta é otimo mas quem não é fanático por carnaval não tem como escapar, o país fica tomado. Mas dá pelo menos prá aproveitar um pouco do que sobrou do carnaval fora das grandes avenidas repetitivas, dos trios elétricos de milhões e dos dourados com laranja e limão, nas coisas mais simples e mais autênticas dos feriados brasileiros…

 

Gastronomia de carnaval 1:

cerveja-na-praia1

 

Gastronomia de carnaval 2:

espetinhos

 

E o bom carnaval:

 

É isso aí, o lado bom do Brasil é impagável! Vá por ele… e bom carnaval!

Mais sobre a ‘purificação’ da gastronomia na Itália

Em relação à expulsão de restaurantes não italianos em algumas cidades da Itália, que é o tema do meu post do dia 3 de fevereiro “Pasta x Kebab: um conflito ignorante”, mais águas estão rolando na imprensa internacional. Com reposta do ministro italiano.

No dia 6, Matthew Fort, do The Guardian, também publicou um artigo criticando a xenofobia do governo italiano que decidiu expulsar de algumas cidades os restaurantes étnicos não italianos numa tentativa de purificação da cozinha italiana pela força da lei. Ele repete que a culinária italiana é formada por influências de diversas outras culturas e que, em geral, grande parte dos italianos não somente critica outras cozinhas em seu território como costuma também criticar fortemente a culinária praticada em restaurantes italianos em outros países. Independente do mérito (muitas vezes estes restaurantes são ruins mesmo), ele ressalta que isto não é problema deles e que cada um tem o direito de cozinhar o que quer.

Ironicamente ele diz ainda que os italianos desde a hora em que acordam pela manhã buscam sempre comer a melhor comida que seu dinheiro pode comprar, o melhor possível, buscando sempre algo memorável o tempo todo, e que por isto passam a vida toda procurando a comida da mãe.

La Mamma

Matthew Fort está claramente contra esta tendência de discriminação na Itália, mas termina seu artigo com uma questão interessante. Diz que o movimento  Slow Food foi criado para contra-atacar a invasão de uma culinária globalizada na Itália simbolizada pelo McDonald’s, e que “para também não montarmos no nosso alto cavalo da moral” pergunta: “Há diferença entre levantar dois dedos contra a invasão da comida americana ou contra a comida do Oriente Médio, Índia ou China?” Ou seja, deve-se considerar o porquê de um movimento ter sido tão bem aceito pelo mundo enquanto esta atual repulsa oficial é vista como xenofobia.

E eu respondo. Simplesmente porque o movimento Slow Food é um movimento criado pela sociedade organizada, de forma democrática, adere quem quer, e não tem força policial para expulsar ninguém. Já a atual demonstração de xenofobia cultural, aqui em questão, são canetadas de governantes de direita que cerceam o direito de cidadãos regularmente estabelecidos e definem por lei a posição que a sociedade italiana deve tomar sobre um assunto que é de origem cultural. É portanto discriminação.

Com tudo isto, e não se aguentando na sua cadeira do renascimento em algum palácio romano da monarquia pós-unificação, o ministro italiano de políticas da agricultura e alimentação, Luca Zaia, respondeu hoje no Guardian às críticas de Matthew, dizendo que a culinária italiana não foi importada nos século 18 (ou 16 e 17), e sim vem da Roma Antiga, da época dos Cesares. Ave Cesar.

Ok, comida dos Cesares ou comida importada, tradições ou novidades na história, continuo defendendo firmemente que é impossível controlar o fluxo cultural através de leis que cheiram xenofobia ou qualquer tipo de intolerância, NÃO SE PODE EXPULSAR uma cultura, além do respeito aos direitos dos imigrantes, simplesmente porque isto não funciona. Eles deveriam é criar mais escolas de culinária italiana tradicional, aprimorar a qualidade de seus produtos e seus restaurantes, incentivar a profissionalização dos cozinheiros, seguir com suas certificações nacionais e internacionais (há várias associações italianas que fazem isso e eu as apoio), e promover seus valores, SEM mexer com os detentores de outras culturas ou os amantes de hamburguers, kebabs, rolinhos primavera ou o que mais for.

Para quem tem interesse no assunto, vale muito a pena ler os dois artigos citados, mais uma vez aqui vão os links, do crítico do The Guardian e da resposta do ministro italiano.

PS. Aqui no Brasil faço parte de uma entidade que defende e promove a cultura culinária brasileira, em suas diversas regionalidades, sou favorável e ativista da preservação cultural, da manutenção das tradições, da identidade dos povos, da valorização das culturas locais, etc. Mas sempre com a aceitação dos outros, da diversidade cultural, da inovação coerente, das tendências e da vital importância das vanguardas, e principalmente, sempre sem canetadas de governos que preguem a exclusão!!

Epicurean Tourist – webshow

Existem diversos programas de tv de culinária e de turismo com gastronomia, e centenas deles na web (contando só os profissionais, os amadores serão milhares). Mas que eu saiba este é o primeiro programa com boa qualidade profissional feito por negros, tendo negros como entrevistados e participantes (mas não só, há brancos também). E ainda, de quebra, é apresentado por uma moça muito simpática chamada Paige Simmons.

Falo do “Epicurean Tourist”, que descobri em seu canal no Foodtube.

É um programa alegre e descontraído em que a bela Paige viaja pelo mundo redescobrindo culturas através da gastronomia. E mostrando muito bem ao mundo que os negros da classe média estão consumindo gastronomia de qualidade tanto quanto os brancos da mesma classe. Estamos acostumados a encarar a gastronomia da cultura negra só como algo étnico, um tanto exótico, e de dificílimo consumo, quase que reservado à ocasiões prá lá de específicas ou quando se quer dar uma ‘pesquisada’. Mas na verdade este é mais um estereótipo que vai caindo por terra na era 2.0, pois lá nos EUA parece que eles estão consumindo igual aos brancos, e em tempos de Obama parece que isto vai aumentar ainda mais… ainda bem.

Congratulations Paige, you rule!

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

more about “Epicurean Tourist – webshow“, posted with vodpod

Pasta x Kebab: um conflito ignorante

Mark Bittman, o crítico do NYT, publicou ontem um post curto mas muito interessante em seu blog Bitten, chamado “Is Italian Food Sacred?”, sobre a exagerada proteção da culinária regional pelos políticos da direita conservadora e dos extremistas da Liga Norte na Itália. Ali no post descobri que a matéria original foi publicada no Times Online de 31/01 – a qual recomendo, não deixem de ler.

A preservação da cultura culinária regional é sempre um bom tema, e às vezes polêmico, mas requer também muito equilíbrio. É claro que se deve promover a cozinha regional, é identidade cultural e uma forma de expressão e não há dúvidas sobre isto, mas é insano tentar varrer a areia do deserto.

Acho que vale relembrar os termos conservação e preservação. Conservação cultural é quando se mantêm uma cultura intacta sem nenhuma interferência, tal qual era quando surgiu, como um retrato fiel do que já foi em um remoto dia, como em um museu. Já a preservação cultural é quando se mantêm uma cultura desenvolvendo-se naturalmente pelas mãos de seu grupo original. Os dois são necessários, mas a sociedade não é um museu.

Os kebabs se multiplicaram pela Europa nos últimos anos como alternativa aos altos preços de se comer fora no velho continente, e quando falamos em pasta ou em kebab, a imagem que vem à mente é esta:

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Puro estereótipo. É claro que árabes ou turcos e europeus, como qualquer etnia, têm sempre boa e má cozinha, como tudo na vida, e a realidade muitas vezes é também esta:

2

Em alguns lugares na Itália, como na toscana Lucca e em Milão, crescem campanhas para banir culinárias étnicas numa tentativa de fazer os italianos comerem somente comida italiana. Em Lucca e em Milão já virou lei a proibição de novos negócios de culinária não italiana. No Veneto os extremistas da Liga Norte, aqueles que há dois ou três anos aboliram os bancos de praças públicas da cidade de Treviso para evitar que neles se sentassem imigrantes, gays e, pasmem, aposentados, estão caçando cozinhas árabes, turcas, russas, africanas e outras cozinhas étnicas como a chinesa, como num tipo de Inquisição moderna.

pr-sem-titulo-5-copiaObservação rápida, todo mundo sabe que encontrar um lugar para comer antes das 11h e depois das 14h em qualquer pequena  cidade italiana é uma tarefa mais do que árdua. Estão todos dormindo ou reclamando da crise econômica (que por lá já dura quase 20 anos). Tudo bem, é direito deles, e também um tipo de tradição “infanto- museológica”. Mas a cultura e os imigrantes não têm nada a ver com isto.

kr-sem-titulo-10-copiaA culinária italiana é a mais exportada do mundo, a que mais aceitação teve nos quatro cantos deste planeta, e a que mais sofreu alterações sempre  preservando suas características estruturais, desenvolvendo-se de maneiras diversas. Mérito próprio de uma cozinha maravilhosa. Eles inventaram o Slow Food com um timing histórico brilhante e uma fantástica idéia de retorno aos valores básicos do bem estar na alimentação do homem. Usam ingredientes puros como ninguém. E na área do fastfood são também os campeões mundiais, não tenho a menor dúvida que existem muitíssimas vezes mais pizzas rápidas do que hamburguers na Terra. E com isto a cultura italiana está presente fortemente em todos os países imagináveis, batendo de igual para igual o showbiz americano, que aliás, foi importado da Roma antinga.

pr-sem-titulo-13-copiaApós a segunda guerra mundial a Itália assinou como uma das fundadoras da UE mesmo tendo sido parte do Eixo Nazi-Fascista. A Rússia, por exemplo, não foi convidada à assinar o tratado. Por isto até o início da década de 1990 a Itália cresceu muito economicamente, tornando-se a 7a economia mundial, porém sua ineficiência burocrática (como no Brasil), seus altíssimos índices de corrupção (como no Brasil), e a presença determinante e autoritária das suas 3 principais máfias e da igreja católica dentro dos mais altos escalões do governo (como no Brasil), levou o país a um declínio político e econômico insustentável que perdura por 2 décadas, e que em 1994 foi oportunamente aproveitado pela direita berlusconiana como um momento de “ôpa, aqui dá prá gente se divertir”. A festa continua até hoje, e é incrivelmente abençoada pela UE.

kr-sem-titulo-3-copiaAgora estes mesmos idiotas estão querendo expulsar a diversidade cultural de gente como nós que somente está buscando viver um pouco melhor, neste caso cozinhando o que sabem e o que conseguem para alimentar os próprios italianos, que não têm dinheiro para pagar os restaurantes… italianos. Isto é xenofobia gastronômica, como também classificado pelo lá famoso chef Vittorio Castellani, na entrevista ao Times Online, e que se juntou à demais chefs e profissionais da gastronomia e à perdida oposição de centro-esquerda italiana para criticar o crescimento da intolerância racial no país-bota.

3Ele citou ainda que vários pratos tidos como autênticos italianos e seus ingredientes são na verdade importados (coisa que sabemos muito bem), o tomate San Marzano do Perú, o spaghetti da China, limões e laranjas dos países árabes, etc, como é importada quase toda a gastronomia no mundo (incluindo a maioria das muitísmas regionalidades brasileiras), que na verdade foram importadas durante as navegações da época do Renascimento, o movimento que se iniciou… na Toscana.

No ano passado fiquei 6 meses morando em Firenze, e antes tinha ficado outros 6 meses na francesa Grenoble, tentando escapar das tentações enogastronômicas para estudar um pouco mais. Come-se muito bem nos dois países (uma obviedade), mas apesar da natureza intrínseca da cozinha italiana ser imbatível devido à pureza dos seus ingredientes no prato, nos restaurantes médios e baratos da França come-se muito melhor do que nos iguais italianos, com uma diferença brutal. O motivo? Os cozinheiros nos restaurantes comuns franceses não param de pensar um único segundo numa maneira de melhorar seus pratos, mesmo os cozinheiros sem muita instrução. Já os cozinheiros nos restaurantes comuns italianos são primos e filhos do dono ou nunca pisaram numa cozinha antes, e acabam dormindo no ponto da preguiça de melhora enquanto seguram alta a bandeira do orgulho. Mas orgulho de quê? A Itália não é mais o centro do mundo há muito tempo! Além disso morando lá dá-se conta que é notável, sólido e violento o crescimento da intolerância racial e cultural na classe média e alta italiana, a que elegeu Berlusconi,  mas também em grande parte de seus não votantes. Na verdade, destes não votantes chega até a dar um pouco de pena, pois sem opção acabam tendo que voltar-se para um pseudo-nacionalismo na tentativa de reeguer o país.

A verdade é que não dá para se evitar as mudanças e os avanços sócio-culturais em nenhum tempo. A preservação cultural sustentável é aquela que admite a existência do outro, da alteridade, para que possa se embasar na sua própria existência, e consequentemente na promoção e no reforço da sua identidade. Não existe identidade sem a existência do outro. Eu não serei eu se não houverem os outros para definir os limítes da minha identidade. E isto é tão básico que torna estremamente ignorantes e perigosos os líderes políticos que querem banir culturas culinárias de seu território, seja na Itália ou em qualquer lugar. Assim também como os que querem banir qualquer outro tipo de interferência cultural, racial, ou qualquer que seja. Simplesmente não dá para se fazer isto, não vai funcionar. E semelhanças não são coincidências, claro que isto aplica-se aos diversos conflitos no nosso mundo trans-nacional contemporâneo.

Porque é que eles não vão cuidar de dar conforto ao povo que os elegeu ao invés de seguirem discriminando pobres de todos os tipos? Mas que petulância, não?

Aqui a coisa não é lá tão diferente não, mas pelo menos ainda ninguém da turma dos idiotas de plantão pensou numa barbaridade como estas. Porém, cidadãos, alerta!

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Kebab tradição

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Kebab pizza

(Todas as imagens deste post são liberadas para uso público pelos seus proprietários usuários do Flickr)

Um mundo felliniano

Duas matérias que foram publicadas na semana passada chamaram a minha atenção.

No Reino Unido começaram a caçar esquilos cinzas para comê-los e não deixarem que acabem com os esquilos vermelhos, que são os nativos da região. Os esquilos cinzas estão sendo caçados aos montes, nos campos e até mesmo nos parques de Londres, e vendidos aos restaurantes e mercados, que os revendem rapidamente pela grande demanda que surgiu com a notícia do aumento da sua população.

Os esquilos cinzas, provenientes da América do Norte, se multiplicaram aos milhares e, além de causar um desequilíbrio no mundo dos esquilos por sua excessiva quantidade, transmitem um virus fatal aos esquilos vermelhos, que estão sendo dizimados. Tudo bem, é uma tentativa de preservar uma espécie, mas tem que comer? So, let’s eat squirrels! Coitadinhos…

squirrel

Até que são fofinhos estes pobres que acabarão nas panelas inglesas…!! (fotos: NYT e Getty Images)

Veja aqui a matéria completa dos esquilos no NYTimes.

Já nos EUA uma lagosta de 140 anos foi retirada de seu aquário em um restaurante de New York e solta no mar do Maine para sua preservação. A lagosta que foi apelidada de George pesa 9kg. O restaurante afirmou que não cozinharia esta velha senhora, mas a usava somente para atrair clientes. A iniciativa do restaurante teve o empurrãozinho do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). E uma curiosidade que pesquei na wikipedia: lagostas possuem o que se chama de “negligência à senescência“, ou seja, podem viver indefinidamente!! (e de repente morrem). Sua idade é medida pelo peso. Se esta pesava 9kg e tinha 140 anos, a maior lagosta já encontrada foi justamente na Nova Escócia e pesava 20,15kg – e não diz lá a sua idade, mas por regra de 3 ela deveria ter a tenra maturidade de 313 anos (não entendo nada de lagostas vivas por isto esta conta é só uma suposição).

the old lobster and the sea... (parafraseando)

The old lobster and the sea… :) (foto: AP e Estadão)

Veja aqui a matéria completa da lagosta na BBC Brasil.

Nunca comi esquilos, mas adoro lagostas. E assim como outros animais miúdos, como rãs e perdizes, imagino que a carne destes peludinhos deve ser saborosa também. Os esquilos já tiveram várias épocas em que frequentaram as panelas, às vezes mais em alta e às vezes mais em baixa, mas nunca foram comuns como iguaria.

Mas não dá para negar que uma questão inocente aparece aqui: porque os esquilos fofinhos são mortos e comidos e a lagosta esquisitona recebeu um indulto se existem várias lagostas velhinhas por aí também?

NYT)

Squirrel Terminator (foto: NYT)

Ok, não tenho nada contra a libertação da lagosta e nem contra a comilança dos “malvados” esquilos cinza, mas será que se fossem os britânicos esquilos vermelhos que estivessem acabando com os americanos esquilos cinzas os ingleses comeriam os seus próprios esquilos com tanto gosto assim? E será que os dirigentes do PETA não comem nunca uma lagostinha?

Não sei, mas me dá uma sensação que é tudo meio engraçado, meio ridículo, ou meio exagerado. A comédia humana que não se esgota jamais, uma mistura de Fellini com algo que disse Borges – “El hombre es un experimento que no resultó”. Enquanto uns ficam tentando salvar tudo com artifícios meio inocentes soltando lagostas velhinhas no mar, outros ficam preocupados em matar tudo e colocam suas botinhas de couro cano alto para sair disparando contra esquilos… e nós aqui, meio glutões e meio gourmets, ficamos só olhando e comendo.

E no fundo ninguém está nem aí. Eis a humanidade.

E você? Mataria, comeria ou libertaria na natureza?

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Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?

Pensando sobre um foco alternativo para minha tese em um master em comunicação, uma amiga sugeriu que eu falasse também sobre as novas celebridades da cozinha, os super chefs, famosos em todo o mundo e que arrecadam milhões de dólares com seus shows de TV e aparições trans-midiáticas. Talvez não vire tese, mas o assunto vale com certeza diversos comentários.

É impressionante como a glamourização da profissão de chef, que ocorre de forma bastante difundida já há no mínimo uns 15 anos, tomou hoje dimensões fora do comum. Hoje alguns chefs internacionais atingiram um tamanho grau de midiatização que anteriormente somente cantores e bandas de rock, atores ou jogadores de futebol conseguiam atingir.

Existem os cozinheiros que viraram famosos por suas estrelas Michelin e pela qualidade de suas inovações culinárias, e a partir daí passaram a freqüentar permanentemente a mídia especializada. Nada mais justo do que isto, faz parte da carreira e toda profissão tem os gênios que se destacam. Mas o fato é que a maioria das celebridades das panelas de hoje não têm um passado glorioso nas cozinhas de seus restaurantes, ao contrário, em alguns casos nem vêm desta área. A Inglaterra é um dos países onde mais este fenômeno se consolidou. Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson são hoje mais valiosos pelos seus salários milionários e merchandising pagos por redes de TV do que pelas suas qualidades culinárias, e também o Mario Batalli nos EUA. Até mesmo o chef Heston Blumenthal, que é reconhecido como um dos melhores chefs ingleses da atualidade e tem uma imagem muito boa entre seus pares e entre alguns dos gastrônomos mais influentes, também preferiu virar uma verdadeira celebridade mundial com seus shows na TV.

Algo de errado nisto? Não, nada de errado, pelo contrário, ajudam a promover a cultura da boa alimentação e de quebra fazem girar o mercado de gastronomia. E conseguem entreter (eu assisto). Mas como é que cozinheiros passaram a ser super stars da mídia tão idolatrados pelo público como são os rock stars, os atacantes artilheiros ou os filhos de hollywood?

Antigamente os programas de culinária eram dirigidos às donas de casa, afinal, na época, cozinheiro homem só em restaurantes. Lembram da Ofélia? Ficou famosa na TV já em 1958 no programa Revista Feminina da TV Tupi, mas seu maior sucesso veio com o Cozinha Maravilhosa da Ofélia, pela Bandeirantes em 1968.

Já um dos primeiros cooking shows da TV americana foi o The French Chef, da (lá) famosa Julia Child, que estreou em 1963. Ela esteve no ar com outros programas e series até 2000. Julia morreu em 2004 aos 92 anos de idade, e neste ano de 2008 tornou-se público que ela tinha sido uma espiã da OSS americana (pré-CIA) durante o pós-guerra, muito antes de virar famosa com sua culinária na TV. Wow, chef famosa na TV e espiã americana? Isto sim é que é uma fantasia completa!

Aqui Julia Child ensinando o preparo de perfeitos omeletes:

(E aqui no link Julia Child mais engraçada, brincando com frangos, em um video que não deu prá colocar no post.)


Os tempos mudaram, os homens agora adoram dizer que amam a cozinha e os restaurantes se sofisticaram e ficaram mais acessíveis à classe média, além disso a gastronomia virou um business rentável e considerado até por grandes grupos investidores. Na mídia, além do poder da TV de transformar seus personagens em ídolos populares, e do entretenimento ser a palavra de ordem nos caixas registradores dos grandes canais, a internet e todos os meios da new mídia construiram novas relações entre cidadãos e sociedade, e o indivíduo comum passou a ter acesso à formação de opinião, como neste e nos milhões de outros blogs por aí. Mesmo quem não vê os programas dos chefs na TV, agora vê ou fica sabendo pela web.

E querem fazer igual. Um simples passeio pelo You Tube traz algumas novas distorsões do fenômeno ‘chefs na TV’. Midiatização é o conceito que explica como a mídia interfere no comportamento do cidadão e este, através da sua audiência, interfere de volta na criação e programação de novos shows e séries. Tudo está interligado. Vejam por exemplo este senhor que está tentando filar seu bocado nesta onda, o The Poor Chef:

E aqui a sua infeliz criação latino-americana, exemplo do que foi dito acima:

E prá fechar, veja aqui o Jamie Oliver em um mix de cozinheiro, rapper-reggae, baterista, apresentador de TV e clown. Talvez seja uma das grandes demonstrações do super-pós-modernismo, reparem como a platéia não sabe muito bem como reagir. Entretenimento puro: ele resolveu cantar sua receita, o reggae é legal e o garotão está se divertindo de verdade. Isto é o que vale.

Após tudo isto fico pensando, será que tem ainda espaço para mais? Já não estamos começando a nos cansar desta permanente celebrização midiática dos chefs? Acho que se você olhar pelo lado do entretenimento e diversão, ainda vai rolar muita novidade por aí, pois por enquanto parece que ainda tem espaço para tudo, e até mesmo para alguns exageros…  O bom da história é que a gente agora pode escolher entre bons e ruins . E quem quiser, pode até tentar fazer igual. Mas se alguém aí for tentar, por favor preste atenção, não tá muito difícil melhorar os exemplos que andam rolando por aí… não é?

Arroz, Feijão e Bife

Ontem à noite no Prêmio Paladar, prêmio para os melhores pratos da gastronomia de São Paulo realizado pelo Caderno Paladar do Estadão, nada chamava muito à atenção. Até que foi anunciado o prêmio para o melhor prato Trivial da cidade.

Tudo bem que os finalistas desta categoria eram todos restaurantes de peso na cena gastronômica da cidade, afinal é natural que os membros do júri não tenham perdido tempo com seus cartões de crédito liberados, mas o premio dado nesta categoria não poderia deixar de chamar mais a atenção do que chamou, sendo entregue ao chef Alex Atala do DOM e do, à abrir, Dalva & Dito.

Arroz, feijão e bife do DOM - foto Paladar online

Arroz, feijão e bife do DOM – foto Paladar online

Pois é, o top chef brasileiro, jovem reconhecido hoje no mundo todo como melhor chef do país tropical, dono do 40º melhor restaurante do mundo no principal ranking da categoria em 2008, que pesquisa incessantemente os ingredientes brasileiros por este país e que há 4 semanas recebeu em São Paulo alguns dos maiores chefs do mundo servindo-lhes o turu, um tipo de verme amazônico encontrado dentro de toras de madeira, foi premiado por um dos mais importantes jornais do país pelo seu prato…. Feijão, Arroz e Bife. Simplesmente genial.

Ele mesmo já disse outras vezes que arrancar suspiros e aplausos de seus comensais com pratos franceses ou elaborações mirabolantes com ingredientes brasileiros é fácil, afinal quem é que come todo dia fois gras, vieiras marinadas ou consommé de cogumelos? O difícil, disse ele, é arrancar suspiros de um brasileiro servindo-lhe arroz com feijão, o prato que a gente come quase todo dia desde criancinha. “Se um comensal me disser que meu arroz com feijão está bom, vou saltar de alegria”.

Arroz, feijão, bife e fritas versão popular - foto blog Brasileiro Gosta

Arroz, feijão, bife e fritas versão popular – foto blog Brasileiro Gosta

E é com este espírito de valorização não somente de nossos ingredientes ou de nossa cultura de raíz, mas também de nossos hábitos e costumes à mesa, que alguns chefs começam a brilhar na cena nacional e internacional. Este me parece um bom caminho para se resgatar a confiança em nossa própria comida. Além das frutas exóticas e das combinações de jambú com arroz de pequi (esta é minha, parece boa, deve funcionar principalmente se você se picar com os espinhos do pequi), os pratos de botequim, os pratos do dia paulistano, e a criatividade caseira, enfim, o hábito gastronômico brasileiro, também devem ser mais premiados pelos bons restaurantes da cidade.

Pois é, pode saltar de alegria Alex, esta foi boa!

Links:

Caderno Paladar

Blog Brasileiro Gosta

Às compras em Londres…

Muito se fala sobre como os ingleses comem mal. Não é verdade se você for a bons restaurantes urbanos, que em Londres pelo menos são todos modernos, design de vanguarda, super chefs e boa comida contemporânea como conhecemos nas melhores capitais. Mas dei um pulo em um supermercado e “flagrei” frutas, verduras, pratos cozidos, frangos e todo o tipo de comida, sempre embaladas e a maioria industrializada mesmo, passada por conservantes, etc. Na verdade 90% das prateleiras do supermercado no centro de Londres que visitei são como estas das fotos aí abaixo. Os outros 10% são produtos não comestíveis. Não tinha nenhuma gôndola de alimento fresco, com exceção de uma única prateleira de batatas que vi, mas também embaladas.

Considerando que Londres é uma das capitais mais modernas do mundo, tudo aqui é tecnologia de ponta, tendência e inovação, a questão é, estamos todos caminhando para esta mesma realidade em nossos supermercados ou não? Fiz esta pergunta a uma amiga, ficamos na dúvida, mas aí uma luz no fim do túnel se acendeu, ela disse: “Você acha que na Itália seria possível vender estas comidas todas embaladas nos supermercados?”. É, acho que na Itália talvez isto não seria possível, orgulhosos pela sua gastronomia como são os italianos, não adotariam este sistema. Então a questão pode ser cultural e de hábitos mesmo, e não de “avanço” da sociedade, e neste caso nós brasileiros estaríamos a salvo disto. Well, let’s see.

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Seção de frutas

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Frangos e amigos

Peixes defumados e frutos do mar

Peixes defumados e frutos do mar

Pratos prontos (mais comuns)

Pratos prontos (mais comuns)