Dr. Sérgio de Paula Santos e a Academia Brasileira de Gastronomia

Em outubro de 1997, durante uma viagem de férias, fiz uma parada em Madrid para encontros profissionais. Em um deles tinha um endereço e um nome em mãos, mas não conhecia a pessoa que me receberia, sabia somente que era o presidente da Real Academia Espanhola de Gastronomia – um nome pomposo, pensei. Chegando lá, enquanto lustravam seus sapatos, um senhor de baixa estatura, cabelos brancos e voz segura me recebeu. Eu não sabia o quanto ele era importante no mundo da gastronomia (entre outros mundos). Era Rafael Ansón. Eu tomei café, ele nada.

Meu propósito no encontro era apenas diplomático, eu representava na época a Abresi – associação de turismo e gastronomia ligada aos sindicatos patronais no Brasil, e queria lhe convidar para vir a São Paulo, algo do tipo “um dia destes, quando der, se o senhor puder”. Ele, ao contrário, enxergou na minha visita uma boa oportunidade de dar um empurrãozinho ao projeto que tinha de expansão das Academias de Gastronomia pela América Latina. Me contou do grupo internacional das academias e me disse que, se eu me interessasse pela idéia, ao chegar ao Brasil deveria procurar duas pessoas de sua recomendação que em ocasiões anteriores já haviam tido conversa similar com ele em Madrid: Carlos Aldan de Araújo e Sérgio de Paula Santos.

Depois de 3 ou 4 meses que eu havia retornado a São Paulo, seria final de janeiro de 1998, resolvi dar chance à idéia que me foi transmitida em Madrid e liguei para os dois nomes recomendados. Ao mencionar nosso amigo em comum, o espanhol, ambos me atenderam prontamente. Marcamos então um encontro entre os três: Aldan – à época vice-presidente do WTC-Club, Dr. Sérgio – otorrinolaringologista de profissão e enófilo de grande prestígio, e eu, para discutirmos a idéia da fundação da Academia Brasileira de Gastronomia conforme nos havia sido sugerido em Madrid.

A idéia pareceu muito boa aos três e resolvemos levá-la adiante. Lembro que Dr. Sérgio, com então 68 anos de idade e uma grande notoriedade no mundo dos vinhos e da boa mesa, me disse: “Enio, foi você quem fez o esforço inicial de nos reunir, você deveria então ser o presidente da Academia”. Obviamente isto foi apenas uma gentileza da parte dele, mas eu, que na época tinha só 29 anos e apenas começava a beber por conta própria, confesso que o susto ao perceber a grandeza deste seu gesto foi o que me deu, neste momento de gênese, a medida exata da enorme responsabilidade do que estávamos tratando naquela conversa: a importância de uma Academia de Gastronomia. Claro, o bom senso prevaleceu e unanimemente escolhemos Dr. Sérgio como nosso primeiro presidente e Aldan como vice. Vários encontros, conversas e negociações internacionais depois, e em março de 2001 fundávamos oficialmente a ABG em um almoço solene no antigo restaurante Infinito, o qual juntos conduziram Dr. Sérgio e Rafael Ansón.

Desde então Dr. Sérgio veio nos orientando na formação do grupo da Academia, sempre com suas sábias e inconfundíveis sugestões. Mesmo quando o grupo quase não se reunia, por períodos de inatividade que chegamos a ter, ele nunca questionou a idéia da Academia ou desistiu de sua fundação. Ele sempre foi muito claro no que pensava, independente de agradar ou não aos ouvidos do interlocutor. Com Dr. Sérgio conversávamos sobre as questões éticas e de gestão da ABG, sobre a mesa brasileira e sua história e sobre o perfil dos membros a serem convidados para os primeiros passos da nova Academia, e ficávamos rendidos pela clareza e forma sábia como ele nos sugeria alguma ação ou tipo de conduta. Era ele quem guiava. Seus gestos de gentileza somados a uma pitada de humor provocante sempre foram sua marca em nossas reuniões.

Um de seus fascínios pessoais era a sua notável cultura histórica, adquirida em seu permanente hábito da busca por documentações e registros nas bibliotecas e livrarias de todo o planeta. Era um pesquisador nato. Por exemplo, em setembro do ano passado tivemos a oportunidade de fazer uma viagem à Sevilha para um encontro de fundação do grupo ibero-americano de academias. Sua esposa, Sra. Marina, também o acompanhou na viagem. Lá participamos de um jantar espetacular e único realizado no centro da Plaza de Toros de la Real Maestranza de Sevilha e preparado por 20 grandes chefs de cozinha de todo o mundo para apenas 100 convidados. Em uma cerimônia realizada meia hora antes do grande jantar, nos salões de La Maestranza, Dr. Sérgio foi aclamado vice-presidente da Academia Ibero-Americana de Gastronomia. Porém, com uma agenda apertada nos 3 dias que por lá estivemos, na verdade ele não via a hora de sair das reuniões, almoços e jantares para passar algumas horas dentro do Arquivo Geral das Índias no centro de Sevilha, principal arquivo de toda documentação sobre as colônias ibéricas. Era lá que ele queria estar. Em outra ocasião, quando eu morava em Florença, fiz um passeio de cerca de 30 km com minha bicicleta para chegar a uma editora fora da cidade e fotocopiar uma revista muito antiga sobre gastronomia que ele me havia pedido por telefone. Sua curiosidade histórica era enorme.

Infelizmente nos últimos 4 meses ele estava inquieto com a “prisão” hospitalar. Eu tive que me conter para não lhe telefonar muito, pois apesar da necessidade de seguir falando com ele dos assuntos da Academia logicamente eu não poderia sobrecarregá-lo. Fiz-lhe minha última visita na Sexta-feira Santa, ele parecia muito bem e estava muito ativo, e ainda após isso me telefonou um par de vezes. Na última vez que falamos, 15 dias atrás, me disse que deveríamos ter um cuidado especial na Academia ao tratar dos vinhos brasileiros, “temos que ajudar a promovê-los”, recomendou com certeza.

Ficaremos assim com seus diversos livros publicados, com suas belas memórias e com sua presença marcada na luz que nos jogou para traçar os caminhos da nascente Academia Brasileira de Gastronomia, mas teremos que nos acostumar às nossas reuniões sem ele. Dr. Sérgio nos deixou na última terça feira 04 de maio, às 23 horas, dois dias antes de completar 81 anos de idade, e não há dúvida, em nenhum de nós, que muito sentiremos a sua imortalidade.

Viva Sérgio!

Dr. Sérgio, na cabeceira da mesa da Academia, e ao seu lado sua esposa Sra. Marina, em jantar da ABG no restaurante Dalva e Dito em 08 de setembro de 2009.

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A culinária como arma de guerra!

Sim, isto mesmo, e o diretor eslovaco Peter Kerekes foi atrás exatamente das histórias das cozinhas estratégicas de diversas guerras, desde a segunda mundial, passando pela Tchetchenia e a guerra dos Balcãs, baseando sua história em 11 receitas que alimentaram milhares de soldados, além de, principalmente, elevar a sua moral através de pratos do orgulho nacional.

Daí saiu o filme Cooking History, que foi lançado no Festival de Cinema de Sarajevo, neste mês.  O tom irreverente do filme mostra as diferenças entre russos, alemães, franceses, croatas, sérvios e demais europeus que se envolveram nas guerras retratadas, suas diferentes visões sobre o papel das suas comidas na guerra, e diversos deliciosos recheios com as histórias dos cozinheiros do front.

Esta foi uma dica de minha antenada amiga autora do blog Popkitchen.

Além dos moedores de carne e das rosadas faces dos eslavos festivos até na guerra, dá uma olhada na história da cozinha que explodiu em goulash no trailer abaixo… é hilária:)…

…e é a cozinha como você nunca viu!

Por que os italianos gostam de falar de comida?

Todo mundo sabe que a Itália e a França são os países da gastronomia por excelência, e que a Espanha atualmente não está muito atrás no quesito ‘exportação de cultura gastronômica”. E todo mundo sabe também que todos os países, sem exceção, têm suas culinárias típicas tão importantes para a sua cultura regional e nacional.

Mas é impressionante como os italianos têm na gastronomia um motivo de conversa a toda hora, em qualquer situação. De fato, na Itália as conversas sempre giram em torno de gastronomia, futebol, política, e por último na lista a igreja católica. Todos os outros assuntos vêm sempre depois. Muito mais do que na França.

Com o mesmo entusiasmo que torcem pelo Roma, Milan, Juventus ou Fiorentina, e que xingam o Berlusconi mesmo se votaram nele, a forma de preparar a polenta, as propriedades da pasta povera ou das pastieras, e a caponata da sua região, são temas de briga, discussões e ferrenho orgulho cidadão. A impressão que se tem é que mesmo antes de se aprender a somar 2+2 ou a localizar Roma no mapa as crianças italianas já sabem o que fazer com farinha, ovos e leite. Faça o teste, sente para almoçar ou jantar com mais de um italiano ao mesmo tempo e se em 5 minutos eles não tiverem trocado alguma receita ou feito uma comparação sobre o que estão comendo e como o mesmo prato é muito melhor preparado no vilarejo deles, é porque já estiveram discutindo isto um pouco antes durante o aperitivo. Pode apostar, não falha nunca.

Mas de onde vem isto? Como isto nasceu e por quê?

capa livro italianiA ensaista russa Elena Kostioukovitch, que é professora na Università degli Studi di Milano, foi pesquisar, e escreveu um excelente e completo livro sobre a gastronomia na Itália e seus diversos hábitos e costumes regionais, justificando a febre italiana por falar de comida. “Perché agli italiani piace parlare del cibo” é uma viagem por cada minuciosa qualidade gastrononômica de todos os pedacinhos da Itália, e a cada capítulo que escreve sobre uma região, escreve outro relacionando e vinculando a culinária local com os diversos hábitos gastronômicos universais. Fala das festas gastronômicas, dos ristoranti, dos pelegrinos, da democracia, da pizza, da felicidade, dos procedimentos, do óleo de oliva, risotos, etc etc etc, além da detalhadíssima culinária de cada uma das regiões da bota. É o livro mais completo sobre a gastronomia italiana acessível para nós mortais não estudiosos do assunto. Recomendo com 5 estrelinhas piscando ardentemente. Infelizmente acho que ainda não foi traduzido para o português.

Aqui na Livraria Cultura só tem em inglês, e aqui no Internet Book Shop tem o original em italiano e entregam no Brasil.

E aqui, a prova!! Numa engraçada sátira a eles mesmos, o ótimo Fiorello, famosíssimo TV star na Itália hoje em dia, leva a gastronomia à dramática efervescência da canzone napoletana:

Fronteira nos Balcãs passa no meio do restaurante

Quando ouvimos a palavra Balcãs pensamos imediatamente em guerras e confusão, assim nos ensinou a história até a década passada. Há muita confusão por lá sim, mas na verdade hoje a região está bem calma e resistindo até que bravamente aos seus anseios de domínios étnicos culturais sobre vizinhos, pois até mesmo a recente separação do Kosovo não gerou lutas armadas.

Mas há um lugar por lá que resiste firme e forte a todas as bélicas investidas históricas, um restaurante de 180 anos de idade que fica exatamente na fronteira da Eslovênia com a Croácia. Até aí tudo bem, se não fosse o fato que ele fica literalmente sobre a fronteira.

Você come nas mesas na Eslovênia, cruza o salão para ir ao banheiro na Croácia, paga suas contas no caixa croata e se quiser jogar um bilhar tem que voltar à Eslovênia. Uma linha amarela cruza o salão demarcando a divisa dos países, e que hoje é também nada mais nada menos que a fronteira oficial da União Européia. Ou seja, você entra e sai da UE só prá ir fazer um xixi no banheiro.

23croatia.large2É o restaurante Kalin, que fica na divisa das cidades de Obrezje na Eslovênia e Bregana na Croácia, e que durante a existência da Iugoslávia sua fronteira interna deixou de ser uma divisão de países, mas que agora é fronteira da UE até que a Croácia seja aceita como membro do bloco, o que pode ocorrer em breve.

A Eslovênia e a Croácia nunca tiveram uma guerra entre elas, mas a rivalidade existe, e é forte. E a diferença cultural é estrutural, com origens diferentes. No ano passado eu fiz uma viagem de carro por lá e ao sair do Vêneto italiano para a Eslovênia nada mudou muito nem na paisagem, nem na estrada e nem na sensação de país desenvolvido. Se não fosse pela arquitetura das igrejas eslovenas que se vê pela estrada, nitidamente eslava em contraposição à romana, não se perceberia a mudança de país. Mas já ao cruzar da Eslovênia para a Croácia eu passei a ter certeza que estava agora sim entrando nos Balcãs, a mudança aí é marcante, e percebe-se claramente também a diferença que faz pertencer ou não à UE. E é também aí que reside grande parte da rivalidade atual dos dois países, pois a Eslovênia vem se opondo à entrada da Croácia no bloco por uma disputa de acesso à baía de Pirano. Enfim, esta é uma longa história que eu não conheço muito bem mas que você pode ler um pouco mais em uma matéria publicada sobre este assunto aqui no UOL.

A proprietária do restaurante é Sasha Kalin, e por sorte dos frequentadores ela é filha de pai esloveno e mãe croata, o que acho que deve garantir uma cozinha equilibrada entre as especialidades dos dois países, evitando também uma guerra culinária.

Do lado de fora do restaurante ficam os guardas da fronteira Croata, que não comem no Kalin porque não querem por os pés na Eslovênia. Do outro lado os guardas eslovenos fazem o mesmo. Já os clientes circulam à vontade dentro do restaurante, mas ao sair pela porta…  infelizmente uns têm que ir sempre à esquerda, enquanto os outros, sempre à direita.

Vista do restaurante Kalin

Vista do restaurante Kalin

Mais sobre este assunto você lê no NYT aqui e aqui, de onde tirei o post.

Meryl Streep interpreta Julia Child no cinema

Será lançado no próximo mês de agosto nos EUA o filme “Julie and Julia“, escrito e dirigido por Nora Ephron e com Meryl Streep no papel de Julia Child, a mais famosa apresentadora de culinária da TV americana dos anos 60, 70 e 80, que teve uma história interessante digna de cinema, escreveu vários livros, e que depois de sua morte descobriu-se que antes de cozinheira na TV ela tinha sido também espiã americana no pós-guerra (sobre Julia Child leia um pouco mais no meu post “Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?“).

Julia Child e Meryl Streep

Julia Child e Meryl Streep

O filme é uma história adaptada do cruzamento de dois livros: My Life in France, que é a autobiografia de Julia Child publicada após sua morte em 2004, e o livro homônimo Julie & Julia, escrito em 2005 por Julie Powell, uma ex-secretária americana que aos 30 anos de idade se sentia perdida e resolveu que queria mudar de vida (como ocorreu com Julia Child antes de se tornar apresentadora de TV).

Para isto em 2002 Julie bolou um projeto, decidiu que em 365 dias encararia em sua pequena cozinha as 524 receitas do livro de Child Mastering the Art of French Cooking (um best seller nos EUA publicado em dois volumes – 1961 e 1970 – e que introduziu na classe média americana à noção de que cozinhar bem era algo que deveria ser seguido, e seguido pelas técnicas básicas francesas).

Enquanto se aventurava preparando cada uma das receitas do livro de Julia Child, Julie Powell escrevia um blog, que 2 anos e meio mais tarde viraria seu livro, contando suas desventuras pela sua cozinha apertada. No fundo a cozinha apertada poderia ser também a sua vida. E esta possibilidade de virada na vida seguindo aquilo que mais se sabe e deseja fazer, é do que trata o filme. No trailer que você vê abaixo Julia Child se questiona “Eu não deveria encontrar alguma coisa para fazer?”, seu amigo lhe pergunta: “E o que é que você realmente gosta de fazer?”, e ela “Comer!”.

Por gostar de comer Child teve uma idéia e se tornou a cozinheira número 1 da América por vários anos, e por seguir suas receitas Powell teve uma idéia, escreveu um blog e vendeu milhares de livros pelo mundo afora. E agora tudo isto chega às telas de cinema. Claro que vou assistir.

Sonho de um país sem pizza

pizza

A BBC Brasil publicou hoje que na Coréia do Norte abriram a primeira pizzaria do país!! Mas como? Ainda tinha algum país sem pizzaria no mundo? Achei que tinham pizzarias até na Suméria!!

Claro que a ordem para abrir a pizzaria mais solitária do planeta foi dada pelo ditador Kim Jong-il (ou também Kim Jong II). Ele mandou uma turma de cozinheiros coreanos para aprender como fazer a redonda na Itália e disse que a Coréia do Norte vai ter agora “alguns dos mais famosos pratos do mundo”. Leia toda a matéria no link acima, seria hilária, se não fosse trágica.

O jornal coreano que foi fonte da matéria da BBC disse ainda que a pizzaria, que foi aberta em dezembro, está sempre cheia. Claro, e pode cobrar quanto quiser pela pizza também, certo? A questão  é que a Coréia do Norte é um dos países mais pobres do mundo e que depende de ajuda humanitária para alimentar sua população. Neste inverno já são 9 milhões sem ter o que comer (números da ONU na matéria).

mixnorthkorea

Será que o Kim pensa que vai servir pizza prá toda esta gente? É bem provável mesmo que ele esteja pensando numa maneira de reproduzir pizza aos montes e cobrar por isto, né não? Oras, que melhor negócio do mundo pode haver para um ditador maluco do que abrir a única pizzaria na redondeza num lugar com uma demanda por comida como esta?

Bom, na verdade, negócio melhor do que esse só mesmo servir pizza pro congresso brasileiro. Ah, se o Kim descobre isso!…

Açaí faz sucesso nos EUA com marketing trambiqueiro

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Açaí é brasileiro (foto Breno Peck no Flickr)

Matéria publicada na quarta-feira 11 no NYT e assinada por Abby Ellin, mostra o sucesso e o drama do marketing abusivo sobre o açaí nos EUA.

Nosso querido Açaí está fazendo um sucesso tremendo por lá. Diz a matéria que em 2008 foram introduzidos e licenciados nos EUA 33 novos produtos à base de açaí, contra apenas 4 em 2004, e que a venda de produtos à base de açaí alcançou a marca de 106 milhões de dólares no ano passado (imagino qual a ínfima porção desta grana é a parte dos produtores de açaí no Brasil perdido do norte). São produtos desde alimentícios até estéticos e rejuvenescedores, e é aí que está o problema.

produtos-de-acai2Os produtos à base de açaí estão sendo vendidos principalmente pela web, e prometidos como produtos “milagrosos”, como “a fruta misteriosa que vem da amazônia” e que vai fazer você emagrecer, rejuvenescer, e até remover suas rugas. E estão também usando desautorizadamente o nome de famosos para testemunhar e assinar os produtos, como a Oprah Winfrey. Mas agora a mídia e autoridades começaram a perceber que não há pesquisas que comprovem nada. Claro, não há mesmo. Mas um tal de Dr. Schauss afirma que o açaí é um excelente anti-oxidante e baseia-se em uma pesquisa que ele fez com… 12 pessoas.

Ou seja, vieram uns americanos prá cá, levaram a fruta prá lá, outros seguiram e fizeram o mesmo, e aí armaram uma fúria marketeira que a transformou em fruta milagrosa ao ampliar e exagerar o conceito de açaí que nós mesmos temos, e começaram a vender seus produtos pelo mesmo sistema que vendem as bombas para aumentar seus pênis ou as pilulas de viagra falsificadas. Enfim, na terra do Tio Sam o açaí virou trambique de malandro americano.

Na verdade a única coisa que se sabe sobre o açaí é o nosso hábito brasileiro com a fruta, que em sua maioria, nós aqui comemos açaí como algo que “substitui uma refeição”. Aqui no escritório mesmo tô cansado de ver a moçada que de vez em quando ao invés de “bater um rango, batem um açaí”. E tenho certeza que no norte e nordeste do Brasil, onde mais se consome a fruta, o açaí já deve ter “curado muita gente” e “salvado muito pai d’égua na hora da cama”, além disso mata a fome que é uma beleza.

Mas aqui a gente fica só nessa mesmo, crenças, sensações e múltiplos usos das energias da fruta, que sem dúvida é porreta mesmo. Mas lá, a coisa ainda vai acabar dando polícia, vai vendendo a imagem do Brasil curandeiro, e quem sabe, ainda não vai aparecer alguém requerendo patente sobre a fruta, como já fizeram no passado com o cupuaçu.

Vamos lá gente, vamos comer mais açaí prá combater o comércio desafinado destes gringos do trambique!