Dr. Sérgio de Paula Santos e a Academia Brasileira de Gastronomia

Em outubro de 1997, durante uma viagem de férias, fiz uma parada em Madrid para encontros profissionais. Em um deles tinha um endereço e um nome em mãos, mas não conhecia a pessoa que me receberia, sabia somente que era o presidente da Real Academia Espanhola de Gastronomia – um nome pomposo, pensei. Chegando lá, enquanto lustravam seus sapatos, um senhor de baixa estatura, cabelos brancos e voz segura me recebeu. Eu não sabia o quanto ele era importante no mundo da gastronomia (entre outros mundos). Era Rafael Ansón. Eu tomei café, ele nada.

Meu propósito no encontro era apenas diplomático, eu representava na época a Abresi – associação de turismo e gastronomia ligada aos sindicatos patronais no Brasil, e queria lhe convidar para vir a São Paulo, algo do tipo “um dia destes, quando der, se o senhor puder”. Ele, ao contrário, enxergou na minha visita uma boa oportunidade de dar um empurrãozinho ao projeto que tinha de expansão das Academias de Gastronomia pela América Latina. Me contou do grupo internacional das academias e me disse que, se eu me interessasse pela idéia, ao chegar ao Brasil deveria procurar duas pessoas de sua recomendação que em ocasiões anteriores já haviam tido conversa similar com ele em Madrid: Carlos Aldan de Araújo e Sérgio de Paula Santos.

Depois de 3 ou 4 meses que eu havia retornado a São Paulo, seria final de janeiro de 1998, resolvi dar chance à idéia que me foi transmitida em Madrid e liguei para os dois nomes recomendados. Ao mencionar nosso amigo em comum, o espanhol, ambos me atenderam prontamente. Marcamos então um encontro entre os três: Aldan – à época vice-presidente do WTC-Club, Dr. Sérgio – otorrinolaringologista de profissão e enófilo de grande prestígio, e eu, para discutirmos a idéia da fundação da Academia Brasileira de Gastronomia conforme nos havia sido sugerido em Madrid.

A idéia pareceu muito boa aos três e resolvemos levá-la adiante. Lembro que Dr. Sérgio, com então 68 anos de idade e uma grande notoriedade no mundo dos vinhos e da boa mesa, me disse: “Enio, foi você quem fez o esforço inicial de nos reunir, você deveria então ser o presidente da Academia”. Obviamente isto foi apenas uma gentileza da parte dele, mas eu, que na época tinha só 29 anos e apenas começava a beber por conta própria, confesso que o susto ao perceber a grandeza deste seu gesto foi o que me deu, neste momento de gênese, a medida exata da enorme responsabilidade do que estávamos tratando naquela conversa: a importância de uma Academia de Gastronomia. Claro, o bom senso prevaleceu e unanimemente escolhemos Dr. Sérgio como nosso primeiro presidente e Aldan como vice. Vários encontros, conversas e negociações internacionais depois, e em março de 2001 fundávamos oficialmente a ABG em um almoço solene no antigo restaurante Infinito, o qual juntos conduziram Dr. Sérgio e Rafael Ansón.

Desde então Dr. Sérgio veio nos orientando na formação do grupo da Academia, sempre com suas sábias e inconfundíveis sugestões. Mesmo quando o grupo quase não se reunia, por períodos de inatividade que chegamos a ter, ele nunca questionou a idéia da Academia ou desistiu de sua fundação. Ele sempre foi muito claro no que pensava, independente de agradar ou não aos ouvidos do interlocutor. Com Dr. Sérgio conversávamos sobre as questões éticas e de gestão da ABG, sobre a mesa brasileira e sua história e sobre o perfil dos membros a serem convidados para os primeiros passos da nova Academia, e ficávamos rendidos pela clareza e forma sábia como ele nos sugeria alguma ação ou tipo de conduta. Era ele quem guiava. Seus gestos de gentileza somados a uma pitada de humor provocante sempre foram sua marca em nossas reuniões.

Um de seus fascínios pessoais era a sua notável cultura histórica, adquirida em seu permanente hábito da busca por documentações e registros nas bibliotecas e livrarias de todo o planeta. Era um pesquisador nato. Por exemplo, em setembro do ano passado tivemos a oportunidade de fazer uma viagem à Sevilha para um encontro de fundação do grupo ibero-americano de academias. Sua esposa, Sra. Marina, também o acompanhou na viagem. Lá participamos de um jantar espetacular e único realizado no centro da Plaza de Toros de la Real Maestranza de Sevilha e preparado por 20 grandes chefs de cozinha de todo o mundo para apenas 100 convidados. Em uma cerimônia realizada meia hora antes do grande jantar, nos salões de La Maestranza, Dr. Sérgio foi aclamado vice-presidente da Academia Ibero-Americana de Gastronomia. Porém, com uma agenda apertada nos 3 dias que por lá estivemos, na verdade ele não via a hora de sair das reuniões, almoços e jantares para passar algumas horas dentro do Arquivo Geral das Índias no centro de Sevilha, principal arquivo de toda documentação sobre as colônias ibéricas. Era lá que ele queria estar. Em outra ocasião, quando eu morava em Florença, fiz um passeio de cerca de 30 km com minha bicicleta para chegar a uma editora fora da cidade e fotocopiar uma revista muito antiga sobre gastronomia que ele me havia pedido por telefone. Sua curiosidade histórica era enorme.

Infelizmente nos últimos 4 meses ele estava inquieto com a “prisão” hospitalar. Eu tive que me conter para não lhe telefonar muito, pois apesar da necessidade de seguir falando com ele dos assuntos da Academia logicamente eu não poderia sobrecarregá-lo. Fiz-lhe minha última visita na Sexta-feira Santa, ele parecia muito bem e estava muito ativo, e ainda após isso me telefonou um par de vezes. Na última vez que falamos, 15 dias atrás, me disse que deveríamos ter um cuidado especial na Academia ao tratar dos vinhos brasileiros, “temos que ajudar a promovê-los”, recomendou com certeza.

Ficaremos assim com seus diversos livros publicados, com suas belas memórias e com sua presença marcada na luz que nos jogou para traçar os caminhos da nascente Academia Brasileira de Gastronomia, mas teremos que nos acostumar às nossas reuniões sem ele. Dr. Sérgio nos deixou na última terça feira 04 de maio, às 23 horas, dois dias antes de completar 81 anos de idade, e não há dúvida, em nenhum de nós, que muito sentiremos a sua imortalidade.

Viva Sérgio!

Dr. Sérgio, na cabeceira da mesa da Academia, e ao seu lado sua esposa Sra. Marina, em jantar da ABG no restaurante Dalva e Dito em 08 de setembro de 2009.

A culinária como arma de guerra!

Sim, isto mesmo, e o diretor eslovaco Peter Kerekes foi atrás exatamente das histórias das cozinhas estratégicas de diversas guerras, desde a segunda mundial, passando pela Tchetchenia e a guerra dos Balcãs, baseando sua história em 11 receitas que alimentaram milhares de soldados, além de, principalmente, elevar a sua moral através de pratos do orgulho nacional.

Daí saiu o filme Cooking History, que foi lançado no Festival de Cinema de Sarajevo, neste mês.  O tom irreverente do filme mostra as diferenças entre russos, alemães, franceses, croatas, sérvios e demais europeus que se envolveram nas guerras retratadas, suas diferentes visões sobre o papel das suas comidas na guerra, e diversos deliciosos recheios com as histórias dos cozinheiros do front.

Esta foi uma dica de minha antenada amiga autora do blog Popkitchen.

Além dos moedores de carne e das rosadas faces dos eslavos festivos até na guerra, dá uma olhada na história da cozinha que explodiu em goulash no trailer abaixo… é hilária:)…

…e é a cozinha como você nunca viu!

Por que os italianos gostam de falar de comida?

Todo mundo sabe que a Itália e a França são os países da gastronomia por excelência, e que a Espanha atualmente não está muito atrás no quesito ‘exportação de cultura gastronômica”. E todo mundo sabe também que todos os países, sem exceção, têm suas culinárias típicas tão importantes para a sua cultura regional e nacional.

Mas é impressionante como os italianos têm na gastronomia um motivo de conversa a toda hora, em qualquer situação. De fato, na Itália as conversas sempre giram em torno de gastronomia, futebol, política, e por último na lista a igreja católica. Todos os outros assuntos vêm sempre depois. Muito mais do que na França.

Com o mesmo entusiasmo que torcem pelo Roma, Milan, Juventus ou Fiorentina, e que xingam o Berlusconi mesmo se votaram nele, a forma de preparar a polenta, as propriedades da pasta povera ou das pastieras, e a caponata da sua região, são temas de briga, discussões e ferrenho orgulho cidadão. A impressão que se tem é que mesmo antes de se aprender a somar 2+2 ou a localizar Roma no mapa as crianças italianas já sabem o que fazer com farinha, ovos e leite. Faça o teste, sente para almoçar ou jantar com mais de um italiano ao mesmo tempo e se em 5 minutos eles não tiverem trocado alguma receita ou feito uma comparação sobre o que estão comendo e como o mesmo prato é muito melhor preparado no vilarejo deles, é porque já estiveram discutindo isto um pouco antes durante o aperitivo. Pode apostar, não falha nunca.

Mas de onde vem isto? Como isto nasceu e por quê?

capa livro italianiA ensaista russa Elena Kostioukovitch, que é professora na Università degli Studi di Milano, foi pesquisar, e escreveu um excelente e completo livro sobre a gastronomia na Itália e seus diversos hábitos e costumes regionais, justificando a febre italiana por falar de comida. “Perché agli italiani piace parlare del cibo” é uma viagem por cada minuciosa qualidade gastrononômica de todos os pedacinhos da Itália, e a cada capítulo que escreve sobre uma região, escreve outro relacionando e vinculando a culinária local com os diversos hábitos gastronômicos universais. Fala das festas gastronômicas, dos ristoranti, dos pelegrinos, da democracia, da pizza, da felicidade, dos procedimentos, do óleo de oliva, risotos, etc etc etc, além da detalhadíssima culinária de cada uma das regiões da bota. É o livro mais completo sobre a gastronomia italiana acessível para nós mortais não estudiosos do assunto. Recomendo com 5 estrelinhas piscando ardentemente. Infelizmente acho que ainda não foi traduzido para o português.

Aqui na Livraria Cultura só tem em inglês, e aqui no Internet Book Shop tem o original em italiano e entregam no Brasil.

E aqui, a prova!! Numa engraçada sátira a eles mesmos, o ótimo Fiorello, famosíssimo TV star na Itália hoje em dia, leva a gastronomia à dramática efervescência da canzone napoletana:

Fronteira nos Balcãs passa no meio do restaurante

Quando ouvimos a palavra Balcãs pensamos imediatamente em guerras e confusão, assim nos ensinou a história até a década passada. Há muita confusão por lá sim, mas na verdade hoje a região está bem calma e resistindo até que bravamente aos seus anseios de domínios étnicos culturais sobre vizinhos, pois até mesmo a recente separação do Kosovo não gerou lutas armadas.

Mas há um lugar por lá que resiste firme e forte a todas as bélicas investidas históricas, um restaurante de 180 anos de idade que fica exatamente na fronteira da Eslovênia com a Croácia. Até aí tudo bem, se não fosse o fato que ele fica literalmente sobre a fronteira.

Você come nas mesas na Eslovênia, cruza o salão para ir ao banheiro na Croácia, paga suas contas no caixa croata e se quiser jogar um bilhar tem que voltar à Eslovênia. Uma linha amarela cruza o salão demarcando a divisa dos países, e que hoje é também nada mais nada menos que a fronteira oficial da União Européia. Ou seja, você entra e sai da UE só prá ir fazer um xixi no banheiro.

23croatia.large2É o restaurante Kalin, que fica na divisa das cidades de Obrezje na Eslovênia e Bregana na Croácia, e que durante a existência da Iugoslávia sua fronteira interna deixou de ser uma divisão de países, mas que agora é fronteira da UE até que a Croácia seja aceita como membro do bloco, o que pode ocorrer em breve.

A Eslovênia e a Croácia nunca tiveram uma guerra entre elas, mas a rivalidade existe, e é forte. E a diferença cultural é estrutural, com origens diferentes. No ano passado eu fiz uma viagem de carro por lá e ao sair do Vêneto italiano para a Eslovênia nada mudou muito nem na paisagem, nem na estrada e nem na sensação de país desenvolvido. Se não fosse pela arquitetura das igrejas eslovenas que se vê pela estrada, nitidamente eslava em contraposição à romana, não se perceberia a mudança de país. Mas já ao cruzar da Eslovênia para a Croácia eu passei a ter certeza que estava agora sim entrando nos Balcãs, a mudança aí é marcante, e percebe-se claramente também a diferença que faz pertencer ou não à UE. E é também aí que reside grande parte da rivalidade atual dos dois países, pois a Eslovênia vem se opondo à entrada da Croácia no bloco por uma disputa de acesso à baía de Pirano. Enfim, esta é uma longa história que eu não conheço muito bem mas que você pode ler um pouco mais em uma matéria publicada sobre este assunto aqui no UOL.

A proprietária do restaurante é Sasha Kalin, e por sorte dos frequentadores ela é filha de pai esloveno e mãe croata, o que acho que deve garantir uma cozinha equilibrada entre as especialidades dos dois países, evitando também uma guerra culinária.

Do lado de fora do restaurante ficam os guardas da fronteira Croata, que não comem no Kalin porque não querem por os pés na Eslovênia. Do outro lado os guardas eslovenos fazem o mesmo. Já os clientes circulam à vontade dentro do restaurante, mas ao sair pela porta…  infelizmente uns têm que ir sempre à esquerda, enquanto os outros, sempre à direita.

Vista do restaurante Kalin

Vista do restaurante Kalin

Mais sobre este assunto você lê no NYT aqui e aqui, de onde tirei o post.

Meryl Streep interpreta Julia Child no cinema

Será lançado no próximo mês de agosto nos EUA o filme “Julie and Julia“, escrito e dirigido por Nora Ephron e com Meryl Streep no papel de Julia Child, a mais famosa apresentadora de culinária da TV americana dos anos 60, 70 e 80, que teve uma história interessante digna de cinema, escreveu vários livros, e que depois de sua morte descobriu-se que antes de cozinheira na TV ela tinha sido também espiã americana no pós-guerra (sobre Julia Child leia um pouco mais no meu post “Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?“).

Julia Child e Meryl Streep

Julia Child e Meryl Streep

O filme é uma história adaptada do cruzamento de dois livros: My Life in France, que é a autobiografia de Julia Child publicada após sua morte em 2004, e o livro homônimo Julie & Julia, escrito em 2005 por Julie Powell, uma ex-secretária americana que aos 30 anos de idade se sentia perdida e resolveu que queria mudar de vida (como ocorreu com Julia Child antes de se tornar apresentadora de TV).

Para isto em 2002 Julie bolou um projeto, decidiu que em 365 dias encararia em sua pequena cozinha as 524 receitas do livro de Child Mastering the Art of French Cooking (um best seller nos EUA publicado em dois volumes – 1961 e 1970 – e que introduziu na classe média americana à noção de que cozinhar bem era algo que deveria ser seguido, e seguido pelas técnicas básicas francesas).

Enquanto se aventurava preparando cada uma das receitas do livro de Julia Child, Julie Powell escrevia um blog, que 2 anos e meio mais tarde viraria seu livro, contando suas desventuras pela sua cozinha apertada. No fundo a cozinha apertada poderia ser também a sua vida. E esta possibilidade de virada na vida seguindo aquilo que mais se sabe e deseja fazer, é do que trata o filme. No trailer que você vê abaixo Julia Child se questiona “Eu não deveria encontrar alguma coisa para fazer?”, seu amigo lhe pergunta: “E o que é que você realmente gosta de fazer?”, e ela “Comer!”.

Por gostar de comer Child teve uma idéia e se tornou a cozinheira número 1 da América por vários anos, e por seguir suas receitas Powell teve uma idéia, escreveu um blog e vendeu milhares de livros pelo mundo afora. E agora tudo isto chega às telas de cinema. Claro que vou assistir.

Sonho de um país sem pizza

pizza

A BBC Brasil publicou hoje que na Coréia do Norte abriram a primeira pizzaria do país!! Mas como? Ainda tinha algum país sem pizzaria no mundo? Achei que tinham pizzarias até na Suméria!!

Claro que a ordem para abrir a pizzaria mais solitária do planeta foi dada pelo ditador Kim Jong-il (ou também Kim Jong II). Ele mandou uma turma de cozinheiros coreanos para aprender como fazer a redonda na Itália e disse que a Coréia do Norte vai ter agora “alguns dos mais famosos pratos do mundo”. Leia toda a matéria no link acima, seria hilária, se não fosse trágica.

O jornal coreano que foi fonte da matéria da BBC disse ainda que a pizzaria, que foi aberta em dezembro, está sempre cheia. Claro, e pode cobrar quanto quiser pela pizza também, certo? A questão  é que a Coréia do Norte é um dos países mais pobres do mundo e que depende de ajuda humanitária para alimentar sua população. Neste inverno já são 9 milhões sem ter o que comer (números da ONU na matéria).

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Será que o Kim pensa que vai servir pizza prá toda esta gente? É bem provável mesmo que ele esteja pensando numa maneira de reproduzir pizza aos montes e cobrar por isto, né não? Oras, que melhor negócio do mundo pode haver para um ditador maluco do que abrir a única pizzaria na redondeza num lugar com uma demanda por comida como esta?

Bom, na verdade, negócio melhor do que esse só mesmo servir pizza pro congresso brasileiro. Ah, se o Kim descobre isso!…

Açaí faz sucesso nos EUA com marketing trambiqueiro

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Açaí é brasileiro (foto Breno Peck no Flickr)

Matéria publicada na quarta-feira 11 no NYT e assinada por Abby Ellin, mostra o sucesso e o drama do marketing abusivo sobre o açaí nos EUA.

Nosso querido Açaí está fazendo um sucesso tremendo por lá. Diz a matéria que em 2008 foram introduzidos e licenciados nos EUA 33 novos produtos à base de açaí, contra apenas 4 em 2004, e que a venda de produtos à base de açaí alcançou a marca de 106 milhões de dólares no ano passado (imagino qual a ínfima porção desta grana é a parte dos produtores de açaí no Brasil perdido do norte). São produtos desde alimentícios até estéticos e rejuvenescedores, e é aí que está o problema.

produtos-de-acai2Os produtos à base de açaí estão sendo vendidos principalmente pela web, e prometidos como produtos “milagrosos”, como “a fruta misteriosa que vem da amazônia” e que vai fazer você emagrecer, rejuvenescer, e até remover suas rugas. E estão também usando desautorizadamente o nome de famosos para testemunhar e assinar os produtos, como a Oprah Winfrey. Mas agora a mídia e autoridades começaram a perceber que não há pesquisas que comprovem nada. Claro, não há mesmo. Mas um tal de Dr. Schauss afirma que o açaí é um excelente anti-oxidante e baseia-se em uma pesquisa que ele fez com… 12 pessoas.

Ou seja, vieram uns americanos prá cá, levaram a fruta prá lá, outros seguiram e fizeram o mesmo, e aí armaram uma fúria marketeira que a transformou em fruta milagrosa ao ampliar e exagerar o conceito de açaí que nós mesmos temos, e começaram a vender seus produtos pelo mesmo sistema que vendem as bombas para aumentar seus pênis ou as pilulas de viagra falsificadas. Enfim, na terra do Tio Sam o açaí virou trambique de malandro americano.

Na verdade a única coisa que se sabe sobre o açaí é o nosso hábito brasileiro com a fruta, que em sua maioria, nós aqui comemos açaí como algo que “substitui uma refeição”. Aqui no escritório mesmo tô cansado de ver a moçada que de vez em quando ao invés de “bater um rango, batem um açaí”. E tenho certeza que no norte e nordeste do Brasil, onde mais se consome a fruta, o açaí já deve ter “curado muita gente” e “salvado muito pai d’égua na hora da cama”, além disso mata a fome que é uma beleza.

Mas aqui a gente fica só nessa mesmo, crenças, sensações e múltiplos usos das energias da fruta, que sem dúvida é porreta mesmo. Mas lá, a coisa ainda vai acabar dando polícia, vai vendendo a imagem do Brasil curandeiro, e quem sabe, ainda não vai aparecer alguém requerendo patente sobre a fruta, como já fizeram no passado com o cupuaçu.

Vamos lá gente, vamos comer mais açaí prá combater o comércio desafinado destes gringos do trambique!

O impacto do fechamento temporário do The Fat Duck

Só um comentário de algo que me chamou a atenção…

O segundo melhor restaurante do mundo pela Restaurant Magazine, o The Fat Duck do celebrity chef Heston Blumenthal, que fica em Berkshire nos arredores de Londres, foi fechado há uma semana por contaminação, e vai reabrir – leia mais aqui (em inglês), e aqui (em português). Chegaram a 400 as notificações de pessoas que de algum modo passaram mal depois de comer lá, na maioria diarréias ou vômitos, mas sem nenhum caso grave registrado.

As autoridades do assunto lá na Inglaterra estão fazendo todas as investigações para detectar qual foi o problema, sem descartar a possibilidade de sabotagem. O chef está obviamente fazendo tudo para que se encontrem as causas e já se prontificou a dar apoio à qualquer um que tenha passado mal depois de comer por lá. Tudo correndo nos conformes.

A questão é que uma semana de fechamento já gerou um prejuízo de cerca de 100 mil libras esterlinas à localidade de Berkshire, que são cerca de 337 mil reais. Este é o faturamento estimado das 500 reservas que até agora foram canceladas no restaurante. Parte deste dinheiro seria certamente gasta na localidade pelos funcionários do restaurante e outra parte investida nos produtos e insumos do restaurante comprados por lá, sem contar os impostos locais.  Quanta gente lá não vai sentir a falta de sua pequena parcela neste montante semanal para seus gastos e atividades cotidianas.

Isto mostra a importância do impacto econômico dos restaurantes na sua região, e a importância de se buscar a sustentabilidade na cadeia produtiva da gastronomia. Quando um elo da cadeia é extremamente protagonista, ele não pode falhar. Os grandes e mais famosos restaurantes geram um grande impacto econômico entre seus fornecedores e nas suas localidades, e têm que ter consciência disto. Claro que acidentes de percurso como estes ocorrem, e neste caso tenho certeza que o The Fat Duck é primoroso quanto à sua higiene, assim como a maioria dos bons restaurantes no mundo, mas quando algo assim ocorre muita gente sofre com isto. Não dá prá se ignorar.

O chef Blumenthal

O chef Blumenthal

Fast-foods deveriam suspender a venda de lanches com brinquedos?

hamburger-toy1Saiu hoje no Estadão uma enquete com este título: “Redes de fast food devem suspender a venda de lanches com brinquedos?”, e duas opções de resposta: sim ou não.

Até o momento da publicação deste post o resultado estava em 60% sim e 40% não.

Parece que uma resposta direta para o sim seria a coisa mais certa e ética, certo? Ok, para muitos sim. Mas para mim parece meio óbvio que a resposta é NÃO.

Deixar de oferecer brindes é uma atitude contra o marketing (no caso o promocional), ou seja, é atacar o conceito central do mercado, o mesmo que nos dá conforto de escolhas, nos dá qualidade por concorrência, diversidade de ofertas, o teu carro na garagem, a tua bolsa de marca ou o teu último modelo de celular (e que também tem seus mega-desequilíbrios sociais, sei disso, mas por favor, marxismo na prática não rola, certo?). Concordo que proibições para ações de marketing são válidas para produtos que fazem mal por si só, como é o caso do cigarro, do álcool, e de qualquer produto intrinsecamente danoso. E mesmo eu sendo a favor da reeducação pela saúde alimentar, e principalmente para as crianças (que isto fique claro aqui), não vejo razão para uma proibição deste tipo.

O problema não está aí, e mais uma vez ninguém vai a fundo no problema enquanto todos resolvem atacar o lado mais fácil e superficial, porém ineficiente.

O problema da saúde alimentar, principalmente no caso dos fast-foods, é que não há nenhum órgão, lei ou entidade que regularize o aspecto nutricional dos alimentos. Não tem nada que obrigue os alimentos industrializados a serem saudáveis e nutritivos!! Explico: se você passar dias só tomando leite, isto vai te fazer mal, se passar dias só bebendo água, isto vai te fazer mal, se passar dias só comendo alface, isto vai te fazer muito mal, e se passar dias só comendo fast-food, isto vai te fazer mal também. Tem que equilibrar.

Mas não é só isto…

No Brasil quem regula a qualidade dos alimentos é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que tem várias formas de fazer isto, uma delas é aquele selo de qualidade S.I.F. (Serviço de Inspeção Federal) que a gente vê nos produtos de origem animal. Fantástico. Teoricamente eles checam todos os alimentos de origem animal que consumimos para ver se não estão contaminados, se têm as bactérias x, y ou z, se estão estragados, se provêm de lotes com problema, etc, etc, para ver se determinado alimento pode causar alguma doença ou problemas ao comê-lo. Isto está muito bom e garante que se você comer, por exemplo, um hambúrguer, você não vai passar mal por isto. Pode comer à vontade. Mas se você decidir comer um pouco da grama do teu jardim e ela estiver limpinha, tudo bem, tão pouco vai te fazer mal algum.

Mas da mesma forma no Brasil não tem ninguém que obrigue que os hambúrgueres sejam nutritivos e balanceados, MESMO SABENDO QUE AS CRIANÇAS ADORAM COMER HAMBÚRGUERES!! Não tem ninguém que fiscalize o valor nutritivo dos alimentos, não há regras para isto. Obrigam a escrever nas embalagens todas as informações, mas não obrigam que estas tabelas de nutrientes dos produtos industrializados e de consumo em massa, como é o caso dos fast-foods, sejam equilibradas segundo as nossas necessidades. Basta que estes alimentos sejam comestíveis e que não estejam contaminados, e tá liberado, pode vender à vontade.

Devem é obrigar as redes de fast-food e a indústria a venderem alimentos balanceados e realmente nutritivos. Mas como a indústria vai fazer isto? Problema deles, têm jeito sim e eles teriam que ser obrigados a fazê-lo. Custa mais caro para eles, vai reduzir o lucro e dar mais trabalho. Ótimo, esta á a base do marketing e do mercado que eles precisam para viver, concorrência e inteligência.

Mas aí, ao invés disto, se realmente for proibida a promoção com brindes para crianças nas redes de fast-foods, tudo bem, eles vão inventar outra forma de promoção, as agências são incrivelmente inteligentes e competentes para isto, e as redes vão continuar vendendo porcaria aos montes para as crianças e adultos do país (como estas coisas estranhas que colocam no meio dos hambúrgueres), e que por sua vez vão continuar engordando e morrendo de complicações derivadas disto. E mais dinheiro será gasto na saúde pública.

Pois é, concorrência e inteligência é o que também está faltando nos (des) governos deste país. E tá muito difícil deles fazerem algo realmente bom e eficiente pro nosso povo brasileiro, não tá não?

Mais sobre a ‘purificação’ da gastronomia na Itália

Em relação à expulsão de restaurantes não italianos em algumas cidades da Itália, que é o tema do meu post do dia 3 de fevereiro “Pasta x Kebab: um conflito ignorante”, mais águas estão rolando na imprensa internacional. Com reposta do ministro italiano.

No dia 6, Matthew Fort, do The Guardian, também publicou um artigo criticando a xenofobia do governo italiano que decidiu expulsar de algumas cidades os restaurantes étnicos não italianos numa tentativa de purificação da cozinha italiana pela força da lei. Ele repete que a culinária italiana é formada por influências de diversas outras culturas e que, em geral, grande parte dos italianos não somente critica outras cozinhas em seu território como costuma também criticar fortemente a culinária praticada em restaurantes italianos em outros países. Independente do mérito (muitas vezes estes restaurantes são ruins mesmo), ele ressalta que isto não é problema deles e que cada um tem o direito de cozinhar o que quer.

Ironicamente ele diz ainda que os italianos desde a hora em que acordam pela manhã buscam sempre comer a melhor comida que seu dinheiro pode comprar, o melhor possível, buscando sempre algo memorável o tempo todo, e que por isto passam a vida toda procurando a comida da mãe.

La Mamma

Matthew Fort está claramente contra esta tendência de discriminação na Itália, mas termina seu artigo com uma questão interessante. Diz que o movimento  Slow Food foi criado para contra-atacar a invasão de uma culinária globalizada na Itália simbolizada pelo McDonald’s, e que “para também não montarmos no nosso alto cavalo da moral” pergunta: “Há diferença entre levantar dois dedos contra a invasão da comida americana ou contra a comida do Oriente Médio, Índia ou China?” Ou seja, deve-se considerar o porquê de um movimento ter sido tão bem aceito pelo mundo enquanto esta atual repulsa oficial é vista como xenofobia.

E eu respondo. Simplesmente porque o movimento Slow Food é um movimento criado pela sociedade organizada, de forma democrática, adere quem quer, e não tem força policial para expulsar ninguém. Já a atual demonstração de xenofobia cultural, aqui em questão, são canetadas de governantes de direita que cerceam o direito de cidadãos regularmente estabelecidos e definem por lei a posição que a sociedade italiana deve tomar sobre um assunto que é de origem cultural. É portanto discriminação.

Com tudo isto, e não se aguentando na sua cadeira do renascimento em algum palácio romano da monarquia pós-unificação, o ministro italiano de políticas da agricultura e alimentação, Luca Zaia, respondeu hoje no Guardian às críticas de Matthew, dizendo que a culinária italiana não foi importada nos século 18 (ou 16 e 17), e sim vem da Roma Antiga, da época dos Cesares. Ave Cesar.

Ok, comida dos Cesares ou comida importada, tradições ou novidades na história, continuo defendendo firmemente que é impossível controlar o fluxo cultural através de leis que cheiram xenofobia ou qualquer tipo de intolerância, NÃO SE PODE EXPULSAR uma cultura, além do respeito aos direitos dos imigrantes, simplesmente porque isto não funciona. Eles deveriam é criar mais escolas de culinária italiana tradicional, aprimorar a qualidade de seus produtos e seus restaurantes, incentivar a profissionalização dos cozinheiros, seguir com suas certificações nacionais e internacionais (há várias associações italianas que fazem isso e eu as apoio), e promover seus valores, SEM mexer com os detentores de outras culturas ou os amantes de hamburguers, kebabs, rolinhos primavera ou o que mais for.

Para quem tem interesse no assunto, vale muito a pena ler os dois artigos citados, mais uma vez aqui vão os links, do crítico do The Guardian e da resposta do ministro italiano.

PS. Aqui no Brasil faço parte de uma entidade que defende e promove a cultura culinária brasileira, em suas diversas regionalidades, sou favorável e ativista da preservação cultural, da manutenção das tradições, da identidade dos povos, da valorização das culturas locais, etc. Mas sempre com a aceitação dos outros, da diversidade cultural, da inovação coerente, das tendências e da vital importância das vanguardas, e principalmente, sempre sem canetadas de governos que preguem a exclusão!!

Pasta x Kebab: um conflito ignorante

Mark Bittman, o crítico do NYT, publicou ontem um post curto mas muito interessante em seu blog Bitten, chamado “Is Italian Food Sacred?”, sobre a exagerada proteção da culinária regional pelos políticos da direita conservadora e dos extremistas da Liga Norte na Itália. Ali no post descobri que a matéria original foi publicada no Times Online de 31/01 – a qual recomendo, não deixem de ler.

A preservação da cultura culinária regional é sempre um bom tema, e às vezes polêmico, mas requer também muito equilíbrio. É claro que se deve promover a cozinha regional, é identidade cultural e uma forma de expressão e não há dúvidas sobre isto, mas é insano tentar varrer a areia do deserto.

Acho que vale relembrar os termos conservação e preservação. Conservação cultural é quando se mantêm uma cultura intacta sem nenhuma interferência, tal qual era quando surgiu, como um retrato fiel do que já foi em um remoto dia, como em um museu. Já a preservação cultural é quando se mantêm uma cultura desenvolvendo-se naturalmente pelas mãos de seu grupo original. Os dois são necessários, mas a sociedade não é um museu.

Os kebabs se multiplicaram pela Europa nos últimos anos como alternativa aos altos preços de se comer fora no velho continente, e quando falamos em pasta ou em kebab, a imagem que vem à mente é esta:

1

Puro estereótipo. É claro que árabes ou turcos e europeus, como qualquer etnia, têm sempre boa e má cozinha, como tudo na vida, e a realidade muitas vezes é também esta:

2

Em alguns lugares na Itália, como na toscana Lucca e em Milão, crescem campanhas para banir culinárias étnicas numa tentativa de fazer os italianos comerem somente comida italiana. Em Lucca e em Milão já virou lei a proibição de novos negócios de culinária não italiana. No Veneto os extremistas da Liga Norte, aqueles que há dois ou três anos aboliram os bancos de praças públicas da cidade de Treviso para evitar que neles se sentassem imigrantes, gays e, pasmem, aposentados, estão caçando cozinhas árabes, turcas, russas, africanas e outras cozinhas étnicas como a chinesa, como num tipo de Inquisição moderna.

pr-sem-titulo-5-copiaObservação rápida, todo mundo sabe que encontrar um lugar para comer antes das 11h e depois das 14h em qualquer pequena  cidade italiana é uma tarefa mais do que árdua. Estão todos dormindo ou reclamando da crise econômica (que por lá já dura quase 20 anos). Tudo bem, é direito deles, e também um tipo de tradição “infanto- museológica”. Mas a cultura e os imigrantes não têm nada a ver com isto.

kr-sem-titulo-10-copiaA culinária italiana é a mais exportada do mundo, a que mais aceitação teve nos quatro cantos deste planeta, e a que mais sofreu alterações sempre  preservando suas características estruturais, desenvolvendo-se de maneiras diversas. Mérito próprio de uma cozinha maravilhosa. Eles inventaram o Slow Food com um timing histórico brilhante e uma fantástica idéia de retorno aos valores básicos do bem estar na alimentação do homem. Usam ingredientes puros como ninguém. E na área do fastfood são também os campeões mundiais, não tenho a menor dúvida que existem muitíssimas vezes mais pizzas rápidas do que hamburguers na Terra. E com isto a cultura italiana está presente fortemente em todos os países imagináveis, batendo de igual para igual o showbiz americano, que aliás, foi importado da Roma antinga.

pr-sem-titulo-13-copiaApós a segunda guerra mundial a Itália assinou como uma das fundadoras da UE mesmo tendo sido parte do Eixo Nazi-Fascista. A Rússia, por exemplo, não foi convidada à assinar o tratado. Por isto até o início da década de 1990 a Itália cresceu muito economicamente, tornando-se a 7a economia mundial, porém sua ineficiência burocrática (como no Brasil), seus altíssimos índices de corrupção (como no Brasil), e a presença determinante e autoritária das suas 3 principais máfias e da igreja católica dentro dos mais altos escalões do governo (como no Brasil), levou o país a um declínio político e econômico insustentável que perdura por 2 décadas, e que em 1994 foi oportunamente aproveitado pela direita berlusconiana como um momento de “ôpa, aqui dá prá gente se divertir”. A festa continua até hoje, e é incrivelmente abençoada pela UE.

kr-sem-titulo-3-copiaAgora estes mesmos idiotas estão querendo expulsar a diversidade cultural de gente como nós que somente está buscando viver um pouco melhor, neste caso cozinhando o que sabem e o que conseguem para alimentar os próprios italianos, que não têm dinheiro para pagar os restaurantes… italianos. Isto é xenofobia gastronômica, como também classificado pelo lá famoso chef Vittorio Castellani, na entrevista ao Times Online, e que se juntou à demais chefs e profissionais da gastronomia e à perdida oposição de centro-esquerda italiana para criticar o crescimento da intolerância racial no país-bota.

3Ele citou ainda que vários pratos tidos como autênticos italianos e seus ingredientes são na verdade importados (coisa que sabemos muito bem), o tomate San Marzano do Perú, o spaghetti da China, limões e laranjas dos países árabes, etc, como é importada quase toda a gastronomia no mundo (incluindo a maioria das muitísmas regionalidades brasileiras), que na verdade foram importadas durante as navegações da época do Renascimento, o movimento que se iniciou… na Toscana.

No ano passado fiquei 6 meses morando em Firenze, e antes tinha ficado outros 6 meses na francesa Grenoble, tentando escapar das tentações enogastronômicas para estudar um pouco mais. Come-se muito bem nos dois países (uma obviedade), mas apesar da natureza intrínseca da cozinha italiana ser imbatível devido à pureza dos seus ingredientes no prato, nos restaurantes médios e baratos da França come-se muito melhor do que nos iguais italianos, com uma diferença brutal. O motivo? Os cozinheiros nos restaurantes comuns franceses não param de pensar um único segundo numa maneira de melhorar seus pratos, mesmo os cozinheiros sem muita instrução. Já os cozinheiros nos restaurantes comuns italianos são primos e filhos do dono ou nunca pisaram numa cozinha antes, e acabam dormindo no ponto da preguiça de melhora enquanto seguram alta a bandeira do orgulho. Mas orgulho de quê? A Itália não é mais o centro do mundo há muito tempo! Além disso morando lá dá-se conta que é notável, sólido e violento o crescimento da intolerância racial e cultural na classe média e alta italiana, a que elegeu Berlusconi,  mas também em grande parte de seus não votantes. Na verdade, destes não votantes chega até a dar um pouco de pena, pois sem opção acabam tendo que voltar-se para um pseudo-nacionalismo na tentativa de reeguer o país.

A verdade é que não dá para se evitar as mudanças e os avanços sócio-culturais em nenhum tempo. A preservação cultural sustentável é aquela que admite a existência do outro, da alteridade, para que possa se embasar na sua própria existência, e consequentemente na promoção e no reforço da sua identidade. Não existe identidade sem a existência do outro. Eu não serei eu se não houverem os outros para definir os limítes da minha identidade. E isto é tão básico que torna estremamente ignorantes e perigosos os líderes políticos que querem banir culturas culinárias de seu território, seja na Itália ou em qualquer lugar. Assim também como os que querem banir qualquer outro tipo de interferência cultural, racial, ou qualquer que seja. Simplesmente não dá para se fazer isto, não vai funcionar. E semelhanças não são coincidências, claro que isto aplica-se aos diversos conflitos no nosso mundo trans-nacional contemporâneo.

Porque é que eles não vão cuidar de dar conforto ao povo que os elegeu ao invés de seguirem discriminando pobres de todos os tipos? Mas que petulância, não?

Aqui a coisa não é lá tão diferente não, mas pelo menos ainda ninguém da turma dos idiotas de plantão pensou numa barbaridade como estas. Porém, cidadãos, alerta!

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Kebab tradição

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Kebab pizza

(Todas as imagens deste post são liberadas para uso público pelos seus proprietários usuários do Flickr)

Vacas felizes são autóctones e têm nome

A Mimosa

A Mimosa (foto: publicenergy no flickr)

Nesta semana as vacas devem ter sido o assunto principal entre os pesquisadores britânicos.

Esta noticia da BBC Brasil, que é ótima para os amantes de animais e talvez ajude um pouco a consolar os veg-veg hiper-vegetarianos, diz que vacas que recebem um nome e são tratadas como indivíduos produzem mais leite, e são por isto obviamente mais felizes. O estudo é da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, e diz que a produção anual de uma vaca pode aumentar em até 285 litros se ela for, digamos assim, considerada. Aqui pensando bem, acho que os nossos caipiras já sabiam disso faz tempo.

E esta outra notícia diz que um estudo da Universidade de Londres descobriu que as vacas têm sotaque regional ao mugir. Ou seja, mugem de um jeito aqui e de outro acolá. Um tal de professor John Wells, que investigou o assunto, disse: “Eu passo muito tempo com as minhas vacas, e definitivamente elas mugem com um sotaque de Somerset”.

É isto aí, cada vaca no seu quadrado…

Um mundo felliniano

Duas matérias que foram publicadas na semana passada chamaram a minha atenção.

No Reino Unido começaram a caçar esquilos cinzas para comê-los e não deixarem que acabem com os esquilos vermelhos, que são os nativos da região. Os esquilos cinzas estão sendo caçados aos montes, nos campos e até mesmo nos parques de Londres, e vendidos aos restaurantes e mercados, que os revendem rapidamente pela grande demanda que surgiu com a notícia do aumento da sua população.

Os esquilos cinzas, provenientes da América do Norte, se multiplicaram aos milhares e, além de causar um desequilíbrio no mundo dos esquilos por sua excessiva quantidade, transmitem um virus fatal aos esquilos vermelhos, que estão sendo dizimados. Tudo bem, é uma tentativa de preservar uma espécie, mas tem que comer? So, let’s eat squirrels! Coitadinhos…

squirrel

Até que são fofinhos estes pobres que acabarão nas panelas inglesas…!! (fotos: NYT e Getty Images)

Veja aqui a matéria completa dos esquilos no NYTimes.

Já nos EUA uma lagosta de 140 anos foi retirada de seu aquário em um restaurante de New York e solta no mar do Maine para sua preservação. A lagosta que foi apelidada de George pesa 9kg. O restaurante afirmou que não cozinharia esta velha senhora, mas a usava somente para atrair clientes. A iniciativa do restaurante teve o empurrãozinho do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). E uma curiosidade que pesquei na wikipedia: lagostas possuem o que se chama de “negligência à senescência“, ou seja, podem viver indefinidamente!! (e de repente morrem). Sua idade é medida pelo peso. Se esta pesava 9kg e tinha 140 anos, a maior lagosta já encontrada foi justamente na Nova Escócia e pesava 20,15kg – e não diz lá a sua idade, mas por regra de 3 ela deveria ter a tenra maturidade de 313 anos (não entendo nada de lagostas vivas por isto esta conta é só uma suposição).

the old lobster and the sea... (parafraseando)

The old lobster and the sea… :) (foto: AP e Estadão)

Veja aqui a matéria completa da lagosta na BBC Brasil.

Nunca comi esquilos, mas adoro lagostas. E assim como outros animais miúdos, como rãs e perdizes, imagino que a carne destes peludinhos deve ser saborosa também. Os esquilos já tiveram várias épocas em que frequentaram as panelas, às vezes mais em alta e às vezes mais em baixa, mas nunca foram comuns como iguaria.

Mas não dá para negar que uma questão inocente aparece aqui: porque os esquilos fofinhos são mortos e comidos e a lagosta esquisitona recebeu um indulto se existem várias lagostas velhinhas por aí também?

NYT)

Squirrel Terminator (foto: NYT)

Ok, não tenho nada contra a libertação da lagosta e nem contra a comilança dos “malvados” esquilos cinza, mas será que se fossem os britânicos esquilos vermelhos que estivessem acabando com os americanos esquilos cinzas os ingleses comeriam os seus próprios esquilos com tanto gosto assim? E será que os dirigentes do PETA não comem nunca uma lagostinha?

Não sei, mas me dá uma sensação que é tudo meio engraçado, meio ridículo, ou meio exagerado. A comédia humana que não se esgota jamais, uma mistura de Fellini com algo que disse Borges – “El hombre es un experimento que no resultó”. Enquanto uns ficam tentando salvar tudo com artifícios meio inocentes soltando lagostas velhinhas no mar, outros ficam preocupados em matar tudo e colocam suas botinhas de couro cano alto para sair disparando contra esquilos… e nós aqui, meio glutões e meio gourmets, ficamos só olhando e comendo.

E no fundo ninguém está nem aí. Eis a humanidade.

E você? Mataria, comeria ou libertaria na natureza?

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Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?

Pensando sobre um foco alternativo para minha tese em um master em comunicação, uma amiga sugeriu que eu falasse também sobre as novas celebridades da cozinha, os super chefs, famosos em todo o mundo e que arrecadam milhões de dólares com seus shows de TV e aparições trans-midiáticas. Talvez não vire tese, mas o assunto vale com certeza diversos comentários.

É impressionante como a glamourização da profissão de chef, que ocorre de forma bastante difundida já há no mínimo uns 15 anos, tomou hoje dimensões fora do comum. Hoje alguns chefs internacionais atingiram um tamanho grau de midiatização que anteriormente somente cantores e bandas de rock, atores ou jogadores de futebol conseguiam atingir.

Existem os cozinheiros que viraram famosos por suas estrelas Michelin e pela qualidade de suas inovações culinárias, e a partir daí passaram a freqüentar permanentemente a mídia especializada. Nada mais justo do que isto, faz parte da carreira e toda profissão tem os gênios que se destacam. Mas o fato é que a maioria das celebridades das panelas de hoje não têm um passado glorioso nas cozinhas de seus restaurantes, ao contrário, em alguns casos nem vêm desta área. A Inglaterra é um dos países onde mais este fenômeno se consolidou. Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson são hoje mais valiosos pelos seus salários milionários e merchandising pagos por redes de TV do que pelas suas qualidades culinárias, e também o Mario Batalli nos EUA. Até mesmo o chef Heston Blumenthal, que é reconhecido como um dos melhores chefs ingleses da atualidade e tem uma imagem muito boa entre seus pares e entre alguns dos gastrônomos mais influentes, também preferiu virar uma verdadeira celebridade mundial com seus shows na TV.

Algo de errado nisto? Não, nada de errado, pelo contrário, ajudam a promover a cultura da boa alimentação e de quebra fazem girar o mercado de gastronomia. E conseguem entreter (eu assisto). Mas como é que cozinheiros passaram a ser super stars da mídia tão idolatrados pelo público como são os rock stars, os atacantes artilheiros ou os filhos de hollywood?

Antigamente os programas de culinária eram dirigidos às donas de casa, afinal, na época, cozinheiro homem só em restaurantes. Lembram da Ofélia? Ficou famosa na TV já em 1958 no programa Revista Feminina da TV Tupi, mas seu maior sucesso veio com o Cozinha Maravilhosa da Ofélia, pela Bandeirantes em 1968.

Já um dos primeiros cooking shows da TV americana foi o The French Chef, da (lá) famosa Julia Child, que estreou em 1963. Ela esteve no ar com outros programas e series até 2000. Julia morreu em 2004 aos 92 anos de idade, e neste ano de 2008 tornou-se público que ela tinha sido uma espiã da OSS americana (pré-CIA) durante o pós-guerra, muito antes de virar famosa com sua culinária na TV. Wow, chef famosa na TV e espiã americana? Isto sim é que é uma fantasia completa!

Aqui Julia Child ensinando o preparo de perfeitos omeletes:

(E aqui no link Julia Child mais engraçada, brincando com frangos, em um video que não deu prá colocar no post.)


Os tempos mudaram, os homens agora adoram dizer que amam a cozinha e os restaurantes se sofisticaram e ficaram mais acessíveis à classe média, além disso a gastronomia virou um business rentável e considerado até por grandes grupos investidores. Na mídia, além do poder da TV de transformar seus personagens em ídolos populares, e do entretenimento ser a palavra de ordem nos caixas registradores dos grandes canais, a internet e todos os meios da new mídia construiram novas relações entre cidadãos e sociedade, e o indivíduo comum passou a ter acesso à formação de opinião, como neste e nos milhões de outros blogs por aí. Mesmo quem não vê os programas dos chefs na TV, agora vê ou fica sabendo pela web.

E querem fazer igual. Um simples passeio pelo You Tube traz algumas novas distorsões do fenômeno ‘chefs na TV’. Midiatização é o conceito que explica como a mídia interfere no comportamento do cidadão e este, através da sua audiência, interfere de volta na criação e programação de novos shows e séries. Tudo está interligado. Vejam por exemplo este senhor que está tentando filar seu bocado nesta onda, o The Poor Chef:

E aqui a sua infeliz criação latino-americana, exemplo do que foi dito acima:

E prá fechar, veja aqui o Jamie Oliver em um mix de cozinheiro, rapper-reggae, baterista, apresentador de TV e clown. Talvez seja uma das grandes demonstrações do super-pós-modernismo, reparem como a platéia não sabe muito bem como reagir. Entretenimento puro: ele resolveu cantar sua receita, o reggae é legal e o garotão está se divertindo de verdade. Isto é o que vale.

Após tudo isto fico pensando, será que tem ainda espaço para mais? Já não estamos começando a nos cansar desta permanente celebrização midiática dos chefs? Acho que se você olhar pelo lado do entretenimento e diversão, ainda vai rolar muita novidade por aí, pois por enquanto parece que ainda tem espaço para tudo, e até mesmo para alguns exageros…  O bom da história é que a gente agora pode escolher entre bons e ruins . E quem quiser, pode até tentar fazer igual. Mas se alguém aí for tentar, por favor preste atenção, não tá muito difícil melhorar os exemplos que andam rolando por aí… não é?

Visita ao Tom’s Kitchen

Pois é, fui então visitar o Tom’s Kitchen, em Londres, o segundo restaurante do chef Tom Aikens (ver post acima sobre a crise de seus restaurantes).

Liguei às 11 da manhã no mesmo dia para pedir reserva. Mesmo não sendo o principal restaurante dele, não tinha mais lugar em mesas, só no bar. Semanas antes por coincidência uma amiga minha londrina tinha me falado que era amiga da esposa do chef Tom. Dois telefonemas depois consegui uma mesa. Mas tinha que chegar lá às 6 e meia da (escura) tarde, e deixar a mesa às 8 e meia. Tudo pontual. Foi o que fiz.

Térreo

Salão do Térreo

O local tem 3 andares, mais ou menos umas 60 mesas no total. Ficamos no térreo, o melhor salão, e que estava vazio quando fomos os primeiros a chegar. O restaurante é simpático, destes lugares descolados que se encontram em qualquer grande capital. Mas por isto mesmo talvez lhe falte uma personalidade mais própria. Faz o estilo loft com paredes descascadas brancas e móveis em madeira clara, é bonito mas é comum. Os atendentes são jovens, simpáticos, precisos, como se pode esperar de um profissional britânico.

Fomos direto ao menu. Claro, nunca olhe para os preços se eles estiverem em libras esterlinas, a tentação é grande, mas deixe-os fora da sua experiência gastronômica, uma simples olhadinha e seu jantar pode estar arruinado. Seguindo à risca esta regra, pedi uma entrada de risotto de raízes

Root Vegetable Risotto with Fontina, Toasted Walnuts

Root Vegetable Risotto with Fontina, Toasted Walnuts

vegetais, queijo fontina, nozes tostadas e creme fraiche, com umas lascas de parmesão por cima. O risotto por si só já estava bom, cremoso na medida certa e, como éramos os primeiros da noite ele foi servido imediatamente. Mas não foi anunciado no cardápio que haveria um toque a mais de azeite trufado. Como meu próximo prato seria também trufado, achei que eles deveriam ter avisado antes. Fiquei “overtrufado”. A outra entrada da mesa foi escalopes de pão frito com maçãs verdes, salada e creme de rábanos.

Slow Roast Belly of Pork with Creamed Truffled Pearl Barley and Red Chard

Slow Roast Belly of Pork with Creamed Truffled Pearl Barley and Red Chard

Como principal pedi uma barriga de porco lentamente assada, com creme trufado de cevada, acelgas suíças e acompanhado por purê de batatas. Este sim estava bom, a carne com sua pele crocante combinava muito bem com o molho aveludado e quase doce, mas não era inesquecível, só bom. Minha amiga pediu um filé com fritas, isto mesmo, um steak de contra à Bearnaise com fritas à francesa, que segundo ela estava fantástico.

Sirloin Steak with Big Chips and Béarnaise Sauce

Sirloin Steak with Big Chips and Béarnaise Sauce (abaixo na foto o meu purê de batatas)

Mas tudo bem, ela não conhece a carne grelhada no Brasil ainda. Tudo foi acompanhado por uma garrafa de um rioja crianza, o La Montesa 2004. E para sobremesa dividimos uns profiteroles com sorvete de baunilha. Ao final, nada entusiasmou muito, mas estava tudo correto, com exceção do excesso de sabores trufados – o que é grave, e dá aquele ar de “quero ser chic”.

Às 8 e meia em ponto vieram gentilmente nos solicitar que passássemos ao bar, pois os próximos ocupantes da mesa já haviam chegado. Terminamos a noite com shots de whiskey, mas ainda eram 9h! Total da noite 122 libras (454 reais de hoje pelo Yahoo Converter). É caríssimo para brasileiros, principalmente se você considerar que o lugar não vale mais do que, por exemplo, o bom Spot paulistano ou o ótimo Garcia e Rodrigues carioca (prá ficar nos badalados). Mas quando saímos o lugar estava cheio, muito cheio… parece que não é caro para os ingleses que ainda não enfrentaram o credit crunch.

O Tom’s Kitchen fica numa casa em uma rua residencial pouco movimentada no Chelsea,  27 Cale Street – se você for até lá desça na estação South Kensignton do metrô e caminhe 5 minutos. Já seu primeiro restaurante, o 1 estrela Michelin Tom Aiken’s, fica na primeira esquina dali, bem ao lado.