Um bom marketing gastronômico e o mito modernista

Aqui mais uma sobre o restaurante Dalva e Dito, desta vez no Financial Times:

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Todos vocês leram a enxurrada de críticas ao novo restaurante do Alex Atala, o Dalva e Dito, em São Paulo, nos últimos 2 meses, em toda a mídia, certo? Algumas críticas construtivas, positivas ou negativas, mas a maioria trazia um resumo implícito simplificado: “olha ele lá com todo seu marketing, coisa boa não deve ser”. 

Uma em especial chamou muito a atenção, que foi a crítica da Veja SP assinada pelo Arnaldo Lorençato. Muitos gostaram e entraram na linha “vejinha classe média”, do tipo seja ‘in’ – seja igual, muitos outros a criticaram pela sua implacabilidade estomacal com um restaurante recém aberto, e outros ainda o acusaram de oportunismo midiático ao criticar na mass-media o mais famoso chef do país.  A questão é que esta crítica não trouxe aspectos positivos do restaurante, que sim existem, e muitos, e os tantos aspectos negativos citados certamente podem ser relativizados. O pouco que conheço pessoalmente do Arnaldo e o muito que conheço de suas críticas são suficientes para conhecer a sua intelectualidade gastronômica e seu claro entendimento profissional da crítica, que eu admiro, mas pessoalmente não concordo com o tom desta crítica na Veja pelo fato dela não ter aberto espaço para a consideração de que o Dalva e Dito é a primeira iniciativa para trazer a realidade culinária brasileira doméstica ao círculo elitário da alta gastronomia, um risco e tanto que o Atala assumiu, e que só faz bem para o desenvolvimento da maturidade da nossa cozinha e para o reconhecimento do que realmente comemos no dia-a-dia.

Mas sobre este assunto, o melhor comentário é sem sombra de dúvida o que fez o nosso sociólogo da cozinha brasileira Carlos Alberto Dória em seu blog e-Boca Livre, onde achei eco – leia aqui – mas leia mesmo pois seu texto é muito esclarecedor para entender este fato (aqui abaixo copio um trecho).

Então, como acredito que tanto fato quanto fenômeno estão muitíssimo bem explicados pelo Dória, e o assunto já envelheceu na mídia, eu aqui só vim mostrar a crítica do Dalva e Dito feita pelo Charles Campion do Financial Times.

Ele tece elogios à culinária do restaurante, e assim à culinária brasileira, retratando o desafio de mostrar ao mundo o que é que o Brasil come em casa. E levou às páginas de um dos mais importantes jornais de economia do planeta o fato de aqui termos ingredientes fantásticos e que valem muito conhecer e explorar. E ele ainda concorda com o próprio Atala quando o chef diz que o Brasil ainda estará entre os líderes mundiais em gastronomia nos próximos anos. 

Pois é, convenhamos, além dos vários chefs que muitas vezes gastam dinheiro de seu próprio bolso para levar nossa culinária à vitrine do mundo em eventos no exterior (minhas sinceras homenagens à Mara Salles, à Morena Leite, à Elzinha Nunes, à Ana Luiza Trajano e à tantos outros), qual chef tem no Brasil o poder de atrair a boa opinião internacional sobre nossa cozinha sem nem mesmo ter que sair de casa, senão o Atala? E isto é sim marketing, óbvio e claro. Parabéns ao talento e ao marketing do Atala. Ainda bem que tem gente fazendo isto com propriedade, pois sem o marketing gastronômico ainda estaríamos comendo filé a parmigiana em restaurantes “internacionais” em São Paulo e no Rio e achando isto o melhor dos mundos.

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Não resisti, e copio aqui abaixo o melhor trecho explicativo do texto do Dória, tirado de seu blog no link acima, vejam que genial, não pela questão do critico Lorençato, mas pela sua visão do mito modernista na gastronomia brasileira:

“Lorençato é um dos melhores críticos gastronômicos do Brasil, desde os seus remotos escritos na Gazeta Mercantil. Um raro intelectual da culinária, como atesta o seu recente – e excelente – prefácio ao livro de Katarzyna J. Cwiertka, Moderna Cozinha Japonesa (Senac, 2008). Mas, como muitos, talvez ainda esteja demasiado tributário do mito modernista da cozinha brasileira: somos a mestiçagem das heranças coloniais portuguesas, indígenas e negras. E, por apego a esse mito, nos sugere que Dalva & Dito não “vale quanto pesa”, pois nele o Brasil é “coadjuvante”. Ora, o mito foi tecido a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, especialmente pela aplicação culinária que lhe deram depois Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Sua utilidade para os negócios da indústria do turismo é mais do que óbvia, pois esta aterrizou as diferentes “influências” em vários destinos turísticos (vai-se ao Rio Grande do Sul para comer churrasco; a Salvador para comer acarajé; a Belém para comer a culinária de origem indígena e assim por diante), criando um mosaico que justifica a deambulação pelo país, “nas asas da Panair”. No entanto, o valor explicativo do mito para a gastronomia é nulo. 

Como mostrou a antropóloga Lívia Barbosa [“Feijão com arroz e arroz com feijão. O Brasil no prato dos brasileiros”. Horizontes Antropológicos, ano 13, n. 28,jul/dez de 2007], essas comidas “regionais” não compõem a dieta doméstica do brasileiro. A pesquisa que ela fez nas regiões metropolitanas mostra que, no almoço, “94% […] declararam comer arroz e feijão, acompanhados de algum tipo de carne vermelha (69%), galinha (42%), salada (30%), macarrão (24%), verduras em geral (22 % ) e legumes (18%). O consumo de arroz fica acima de 90% em todos os grupos sociais”. De 130 itens alimentares citados pelos pesquisados, “apenas nove podem ser considerados regionais (macacheira, batata doce, inhame, arroz de carreteiro, polpeta, polenta, moqueca de peixe, cuscuz, baião de dois e caruru) todos com menos de 0,5 %”.

No geral, “o consumo dos itens regionais é muito baixo, mesmo nas próprias regiões. Tapioca e baião de dois, por exemplo, aparecem com 1,4% e 5,4% de consumo em Fortaleza, respectivamente; polenta 4,1% em Porto Alegre e 0.3% em São Paulo. A cidade com maior consumo de itens relacionados a sua cozinha tradicional é Recife, com 57,1% para o cuscuz, 10,2% para o queijo de coalho, 55% para o inhame, 36,7% para a macacheira e 6,3% para a batata doce”.

Está claro, portanto, que os “papéis coadjuvantes” que Lorençato atribui a “receitas e ingredientes nacionais” não é um erro de escolha do cardápio de Dalva & Dito mas um dado da realidade alimentar brasileira.  Por que um “brasileirão” deveria trabalhar para a manutenção de um mito que, com um século de existência, pouco serve gastronomicamente, em vez de partir do terreno mais difícil e verdadeiro, como são os hábitos domésticos calcados no arroz-com-feijão?

Tudo o que se come em Dalva & Dito é brasileiro no sentido mais arraigado da palavra e das práticas alimentares reais. Assim, só decepciona os prisioneiros da mitologia modernista. “

Muito interessante, não?

E de volta à brasilidade, é Carnaval…

…e aí não tem jeito, prá quem gosta é otimo mas quem não é fanático por carnaval não tem como escapar, o país fica tomado. Mas dá pelo menos prá aproveitar um pouco do que sobrou do carnaval fora das grandes avenidas repetitivas, dos trios elétricos de milhões e dos dourados com laranja e limão, nas coisas mais simples e mais autênticas dos feriados brasileiros…

 

Gastronomia de carnaval 1:

cerveja-na-praia1

 

Gastronomia de carnaval 2:

espetinhos

 

E o bom carnaval:

 

É isso aí, o lado bom do Brasil é impagável! Vá por ele… e bom carnaval!