Crisis, What Crisis?

Tom Aikens é um jovem chef britânico de 38 anos, que passou por vários restaurantes trabalhando com chefs estrelados pelo guia Michelin, e em 2003 abriu seu restaurante Tom Aiken’s em Londres, ganhando sua primeira própria estrela Michelin em 2004. Em 2005 o Tom Aiken’s foi eleito o oitavo melhor restaurante do mundo pela badalada lista The World’s 50 Best Restaurant, da Restaurant Magazine. Em 2006 ele abriu seu segundo restaurante na capital britânica, o Tom’s Kitchen, seguindo a tendência de grandes chefs que abriram suas segundas ou terceiras casas com menos formalidade e menus ligeiramente mais econômicos. 

Um chef de sucesso. Ou quase, se não fosse por alguns fatos curiosos de sua carreira, daqueles típicos para serem contados com orgulho por cozinheiros brigões bebendo em bares ao final de mais uma suada madrugada. 

 

Evening Standard

Chef Tom Aikens - foto: Evening Standard

 

Em 1999 quando trabalhava no duas estrelas Pied à Terre, também em Londres, ele foi demitido por ter “tatuado” um de seus chefs trainées com uma faca quente. Em 2004 ele teve uma briga no meio do seu estrelado salão bloqueando a saída de um cliente e acusando-o de roubar uma colher de prata, dizendo-lhe em voz alta: “Uma colher de prata está faltando na sua mesa, o que você sabe a respeito disto?”. O incidente acabou no The Times. Em fevereiro deste ano ele abriu seu terceiro restaurante, o Tom’s Place. A proposta desta nova casa era a de servir o tradicional prato fast food inglês, o Fish&Chips, com toques sofisticados e a preços de chef estrelado. Além da proposta talvez inadequada, o cheiro da cozinha na vizinhança também foi denunciado como inadequado, e o restaurante fechou em agosto, 6 meses após sua abertura. 

Agora com a crise mundial de crédito, no mês passado uma avalanche de reclamações de seus fornecedores por falta de pagamento levaram as duas casas restantes do simpático chef a serem resgatadas momentos antes de sua falência pelo grupo de investimento Oakley Capital Private Equity LP . Eles criaram uma nova empresa, a TA Holdco Ltd, da qual Tom agora é minoritário, e ficaram com os restaurantes. Tom é o chef da cozinha, mas as dívidas com os fornecedores continuam sobre a sua cabeça. 

Após o boom dos bons restaurantes ingleses no final dos anos 90 e inicio deste século, foi criado um mercado produtor próprio de ingredientes de alta qualidade naquele país, salvando assim os gran-bretões de terem que consumir eternamente os produtos franceses.  Como as casas de Tom sempre utilizaram os melhores produtos disponíveis, e os produtos de primeira qualidade são sempre produzidos por pequenas empresas, não é mais fácil vencer a batalha com os pequenos credores se a empresa devedora for um grande fundo de investimento? Esta parece ter sido a estratégia. 

No total são 160 pequenas empresas cobrando uma dívida de cerca de 100 mil libras (348 mil reais) do aventureiro chef. São dívidas pequenas, a média aproximada é de 6 mil libras (20 mil reais) por boca, mas que certamente fazem uma tremenda falta para uma empresa pequena. Por sua vez a nova holding controladora tem compromissos também com bancos, certamente na casa das centenas de milhares ou milhões de libras entre este “pequeno negócio” e suas demais aquisições por aí. E quem você acha que vai receber primeiro, os bancos ou o quitandeiro? 

Desta forma a crise acaba levando pequenos fornecedores de peixe fresco, de carne de carneiro, de sashimis, de files de sardinha, de cogumelos, de vitelos e de leitões finamente criados, a ficarem também com o pato. Servido com abacaxi. 

E o simpático e aventureiro chef tem assim mais uma história para contar na sua roda de brigões. Mas será que desta vez alguém vai lhe dar uns petelecos?

 

Na semana passada, em viagem à Londres, estive no Tom’s Kitchen com uma querida amiga. O lugar estava cheio, lotado, difícil conseguir reserva… ué, mas ele não estava quebrando? No post abaixo conto como foi.


Outros links usados neste post:

Bloomberg | Daily Mail Online | Evening Standard | Word of Mouth-Guardian 

 

 

 

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