O impacto do fechamento temporário do The Fat Duck

Só um comentário de algo que me chamou a atenção…

O segundo melhor restaurante do mundo pela Restaurant Magazine, o The Fat Duck do celebrity chef Heston Blumenthal, que fica em Berkshire nos arredores de Londres, foi fechado há uma semana por contaminação, e vai reabrir – leia mais aqui (em inglês), e aqui (em português). Chegaram a 400 as notificações de pessoas que de algum modo passaram mal depois de comer lá, na maioria diarréias ou vômitos, mas sem nenhum caso grave registrado.

As autoridades do assunto lá na Inglaterra estão fazendo todas as investigações para detectar qual foi o problema, sem descartar a possibilidade de sabotagem. O chef está obviamente fazendo tudo para que se encontrem as causas e já se prontificou a dar apoio à qualquer um que tenha passado mal depois de comer por lá. Tudo correndo nos conformes.

A questão é que uma semana de fechamento já gerou um prejuízo de cerca de 100 mil libras esterlinas à localidade de Berkshire, que são cerca de 337 mil reais. Este é o faturamento estimado das 500 reservas que até agora foram canceladas no restaurante. Parte deste dinheiro seria certamente gasta na localidade pelos funcionários do restaurante e outra parte investida nos produtos e insumos do restaurante comprados por lá, sem contar os impostos locais.  Quanta gente lá não vai sentir a falta de sua pequena parcela neste montante semanal para seus gastos e atividades cotidianas.

Isto mostra a importância do impacto econômico dos restaurantes na sua região, e a importância de se buscar a sustentabilidade na cadeia produtiva da gastronomia. Quando um elo da cadeia é extremamente protagonista, ele não pode falhar. Os grandes e mais famosos restaurantes geram um grande impacto econômico entre seus fornecedores e nas suas localidades, e têm que ter consciência disto. Claro que acidentes de percurso como estes ocorrem, e neste caso tenho certeza que o The Fat Duck é primoroso quanto à sua higiene, assim como a maioria dos bons restaurantes no mundo, mas quando algo assim ocorre muita gente sofre com isto. Não dá prá se ignorar.

O chef Blumenthal

O chef Blumenthal

Anúncios

Um mundo felliniano

Duas matérias que foram publicadas na semana passada chamaram a minha atenção.

No Reino Unido começaram a caçar esquilos cinzas para comê-los e não deixarem que acabem com os esquilos vermelhos, que são os nativos da região. Os esquilos cinzas estão sendo caçados aos montes, nos campos e até mesmo nos parques de Londres, e vendidos aos restaurantes e mercados, que os revendem rapidamente pela grande demanda que surgiu com a notícia do aumento da sua população.

Os esquilos cinzas, provenientes da América do Norte, se multiplicaram aos milhares e, além de causar um desequilíbrio no mundo dos esquilos por sua excessiva quantidade, transmitem um virus fatal aos esquilos vermelhos, que estão sendo dizimados. Tudo bem, é uma tentativa de preservar uma espécie, mas tem que comer? So, let’s eat squirrels! Coitadinhos…

squirrel

Até que são fofinhos estes pobres que acabarão nas panelas inglesas…!! (fotos: NYT e Getty Images)

Veja aqui a matéria completa dos esquilos no NYTimes.

Já nos EUA uma lagosta de 140 anos foi retirada de seu aquário em um restaurante de New York e solta no mar do Maine para sua preservação. A lagosta que foi apelidada de George pesa 9kg. O restaurante afirmou que não cozinharia esta velha senhora, mas a usava somente para atrair clientes. A iniciativa do restaurante teve o empurrãozinho do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). E uma curiosidade que pesquei na wikipedia: lagostas possuem o que se chama de “negligência à senescência“, ou seja, podem viver indefinidamente!! (e de repente morrem). Sua idade é medida pelo peso. Se esta pesava 9kg e tinha 140 anos, a maior lagosta já encontrada foi justamente na Nova Escócia e pesava 20,15kg – e não diz lá a sua idade, mas por regra de 3 ela deveria ter a tenra maturidade de 313 anos (não entendo nada de lagostas vivas por isto esta conta é só uma suposição).

the old lobster and the sea... (parafraseando)

The old lobster and the sea… :) (foto: AP e Estadão)

Veja aqui a matéria completa da lagosta na BBC Brasil.

Nunca comi esquilos, mas adoro lagostas. E assim como outros animais miúdos, como rãs e perdizes, imagino que a carne destes peludinhos deve ser saborosa também. Os esquilos já tiveram várias épocas em que frequentaram as panelas, às vezes mais em alta e às vezes mais em baixa, mas nunca foram comuns como iguaria.

Mas não dá para negar que uma questão inocente aparece aqui: porque os esquilos fofinhos são mortos e comidos e a lagosta esquisitona recebeu um indulto se existem várias lagostas velhinhas por aí também?

NYT)

Squirrel Terminator (foto: NYT)

Ok, não tenho nada contra a libertação da lagosta e nem contra a comilança dos “malvados” esquilos cinza, mas será que se fossem os britânicos esquilos vermelhos que estivessem acabando com os americanos esquilos cinzas os ingleses comeriam os seus próprios esquilos com tanto gosto assim? E será que os dirigentes do PETA não comem nunca uma lagostinha?

Não sei, mas me dá uma sensação que é tudo meio engraçado, meio ridículo, ou meio exagerado. A comédia humana que não se esgota jamais, uma mistura de Fellini com algo que disse Borges – “El hombre es un experimento que no resultó”. Enquanto uns ficam tentando salvar tudo com artifícios meio inocentes soltando lagostas velhinhas no mar, outros ficam preocupados em matar tudo e colocam suas botinhas de couro cano alto para sair disparando contra esquilos… e nós aqui, meio glutões e meio gourmets, ficamos só olhando e comendo.

E no fundo ninguém está nem aí. Eis a humanidade.

E você? Mataria, comeria ou libertaria na natureza?

.