Meryl Streep interpreta Julia Child no cinema

Será lançado no próximo mês de agosto nos EUA o filme “Julie and Julia“, escrito e dirigido por Nora Ephron e com Meryl Streep no papel de Julia Child, a mais famosa apresentadora de culinária da TV americana dos anos 60, 70 e 80, que teve uma história interessante digna de cinema, escreveu vários livros, e que depois de sua morte descobriu-se que antes de cozinheira na TV ela tinha sido também espiã americana no pós-guerra (sobre Julia Child leia um pouco mais no meu post “Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?“).

Julia Child e Meryl Streep

Julia Child e Meryl Streep

O filme é uma história adaptada do cruzamento de dois livros: My Life in France, que é a autobiografia de Julia Child publicada após sua morte em 2004, e o livro homônimo Julie & Julia, escrito em 2005 por Julie Powell, uma ex-secretária americana que aos 30 anos de idade se sentia perdida e resolveu que queria mudar de vida (como ocorreu com Julia Child antes de se tornar apresentadora de TV).

Para isto em 2002 Julie bolou um projeto, decidiu que em 365 dias encararia em sua pequena cozinha as 524 receitas do livro de Child Mastering the Art of French Cooking (um best seller nos EUA publicado em dois volumes – 1961 e 1970 – e que introduziu na classe média americana à noção de que cozinhar bem era algo que deveria ser seguido, e seguido pelas técnicas básicas francesas).

Enquanto se aventurava preparando cada uma das receitas do livro de Julia Child, Julie Powell escrevia um blog, que 2 anos e meio mais tarde viraria seu livro, contando suas desventuras pela sua cozinha apertada. No fundo a cozinha apertada poderia ser também a sua vida. E esta possibilidade de virada na vida seguindo aquilo que mais se sabe e deseja fazer, é do que trata o filme. No trailer que você vê abaixo Julia Child se questiona “Eu não deveria encontrar alguma coisa para fazer?”, seu amigo lhe pergunta: “E o que é que você realmente gosta de fazer?”, e ela “Comer!”.

Por gostar de comer Child teve uma idéia e se tornou a cozinheira número 1 da América por vários anos, e por seguir suas receitas Powell teve uma idéia, escreveu um blog e vendeu milhares de livros pelo mundo afora. E agora tudo isto chega às telas de cinema. Claro que vou assistir.

Celebrities chefs – Who wants to be a millionaire?

Pensando sobre um foco alternativo para minha tese em um master em comunicação, uma amiga sugeriu que eu falasse também sobre as novas celebridades da cozinha, os super chefs, famosos em todo o mundo e que arrecadam milhões de dólares com seus shows de TV e aparições trans-midiáticas. Talvez não vire tese, mas o assunto vale com certeza diversos comentários.

É impressionante como a glamourização da profissão de chef, que ocorre de forma bastante difundida já há no mínimo uns 15 anos, tomou hoje dimensões fora do comum. Hoje alguns chefs internacionais atingiram um tamanho grau de midiatização que anteriormente somente cantores e bandas de rock, atores ou jogadores de futebol conseguiam atingir.

Existem os cozinheiros que viraram famosos por suas estrelas Michelin e pela qualidade de suas inovações culinárias, e a partir daí passaram a freqüentar permanentemente a mídia especializada. Nada mais justo do que isto, faz parte da carreira e toda profissão tem os gênios que se destacam. Mas o fato é que a maioria das celebridades das panelas de hoje não têm um passado glorioso nas cozinhas de seus restaurantes, ao contrário, em alguns casos nem vêm desta área. A Inglaterra é um dos países onde mais este fenômeno se consolidou. Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson são hoje mais valiosos pelos seus salários milionários e merchandising pagos por redes de TV do que pelas suas qualidades culinárias, e também o Mario Batalli nos EUA. Até mesmo o chef Heston Blumenthal, que é reconhecido como um dos melhores chefs ingleses da atualidade e tem uma imagem muito boa entre seus pares e entre alguns dos gastrônomos mais influentes, também preferiu virar uma verdadeira celebridade mundial com seus shows na TV.

Algo de errado nisto? Não, nada de errado, pelo contrário, ajudam a promover a cultura da boa alimentação e de quebra fazem girar o mercado de gastronomia. E conseguem entreter (eu assisto). Mas como é que cozinheiros passaram a ser super stars da mídia tão idolatrados pelo público como são os rock stars, os atacantes artilheiros ou os filhos de hollywood?

Antigamente os programas de culinária eram dirigidos às donas de casa, afinal, na época, cozinheiro homem só em restaurantes. Lembram da Ofélia? Ficou famosa na TV já em 1958 no programa Revista Feminina da TV Tupi, mas seu maior sucesso veio com o Cozinha Maravilhosa da Ofélia, pela Bandeirantes em 1968.

Já um dos primeiros cooking shows da TV americana foi o The French Chef, da (lá) famosa Julia Child, que estreou em 1963. Ela esteve no ar com outros programas e series até 2000. Julia morreu em 2004 aos 92 anos de idade, e neste ano de 2008 tornou-se público que ela tinha sido uma espiã da OSS americana (pré-CIA) durante o pós-guerra, muito antes de virar famosa com sua culinária na TV. Wow, chef famosa na TV e espiã americana? Isto sim é que é uma fantasia completa!

Aqui Julia Child ensinando o preparo de perfeitos omeletes:

(E aqui no link Julia Child mais engraçada, brincando com frangos, em um video que não deu prá colocar no post.)


Os tempos mudaram, os homens agora adoram dizer que amam a cozinha e os restaurantes se sofisticaram e ficaram mais acessíveis à classe média, além disso a gastronomia virou um business rentável e considerado até por grandes grupos investidores. Na mídia, além do poder da TV de transformar seus personagens em ídolos populares, e do entretenimento ser a palavra de ordem nos caixas registradores dos grandes canais, a internet e todos os meios da new mídia construiram novas relações entre cidadãos e sociedade, e o indivíduo comum passou a ter acesso à formação de opinião, como neste e nos milhões de outros blogs por aí. Mesmo quem não vê os programas dos chefs na TV, agora vê ou fica sabendo pela web.

E querem fazer igual. Um simples passeio pelo You Tube traz algumas novas distorsões do fenômeno ‘chefs na TV’. Midiatização é o conceito que explica como a mídia interfere no comportamento do cidadão e este, através da sua audiência, interfere de volta na criação e programação de novos shows e séries. Tudo está interligado. Vejam por exemplo este senhor que está tentando filar seu bocado nesta onda, o The Poor Chef:

E aqui a sua infeliz criação latino-americana, exemplo do que foi dito acima:

E prá fechar, veja aqui o Jamie Oliver em um mix de cozinheiro, rapper-reggae, baterista, apresentador de TV e clown. Talvez seja uma das grandes demonstrações do super-pós-modernismo, reparem como a platéia não sabe muito bem como reagir. Entretenimento puro: ele resolveu cantar sua receita, o reggae é legal e o garotão está se divertindo de verdade. Isto é o que vale.

Após tudo isto fico pensando, será que tem ainda espaço para mais? Já não estamos começando a nos cansar desta permanente celebrização midiática dos chefs? Acho que se você olhar pelo lado do entretenimento e diversão, ainda vai rolar muita novidade por aí, pois por enquanto parece que ainda tem espaço para tudo, e até mesmo para alguns exageros…  O bom da história é que a gente agora pode escolher entre bons e ruins . E quem quiser, pode até tentar fazer igual. Mas se alguém aí for tentar, por favor preste atenção, não tá muito difícil melhorar os exemplos que andam rolando por aí… não é?