Fronteira nos Balcãs passa no meio do restaurante

Quando ouvimos a palavra Balcãs pensamos imediatamente em guerras e confusão, assim nos ensinou a história até a década passada. Há muita confusão por lá sim, mas na verdade hoje a região está bem calma e resistindo até que bravamente aos seus anseios de domínios étnicos culturais sobre vizinhos, pois até mesmo a recente separação do Kosovo não gerou lutas armadas.

Mas há um lugar por lá que resiste firme e forte a todas as bélicas investidas históricas, um restaurante de 180 anos de idade que fica exatamente na fronteira da Eslovênia com a Croácia. Até aí tudo bem, se não fosse o fato que ele fica literalmente sobre a fronteira.

Você come nas mesas na Eslovênia, cruza o salão para ir ao banheiro na Croácia, paga suas contas no caixa croata e se quiser jogar um bilhar tem que voltar à Eslovênia. Uma linha amarela cruza o salão demarcando a divisa dos países, e que hoje é também nada mais nada menos que a fronteira oficial da União Européia. Ou seja, você entra e sai da UE só prá ir fazer um xixi no banheiro.

23croatia.large2É o restaurante Kalin, que fica na divisa das cidades de Obrezje na Eslovênia e Bregana na Croácia, e que durante a existência da Iugoslávia sua fronteira interna deixou de ser uma divisão de países, mas que agora é fronteira da UE até que a Croácia seja aceita como membro do bloco, o que pode ocorrer em breve.

A Eslovênia e a Croácia nunca tiveram uma guerra entre elas, mas a rivalidade existe, e é forte. E a diferença cultural é estrutural, com origens diferentes. No ano passado eu fiz uma viagem de carro por lá e ao sair do Vêneto italiano para a Eslovênia nada mudou muito nem na paisagem, nem na estrada e nem na sensação de país desenvolvido. Se não fosse pela arquitetura das igrejas eslovenas que se vê pela estrada, nitidamente eslava em contraposição à romana, não se perceberia a mudança de país. Mas já ao cruzar da Eslovênia para a Croácia eu passei a ter certeza que estava agora sim entrando nos Balcãs, a mudança aí é marcante, e percebe-se claramente também a diferença que faz pertencer ou não à UE. E é também aí que reside grande parte da rivalidade atual dos dois países, pois a Eslovênia vem se opondo à entrada da Croácia no bloco por uma disputa de acesso à baía de Pirano. Enfim, esta é uma longa história que eu não conheço muito bem mas que você pode ler um pouco mais em uma matéria publicada sobre este assunto aqui no UOL.

A proprietária do restaurante é Sasha Kalin, e por sorte dos frequentadores ela é filha de pai esloveno e mãe croata, o que acho que deve garantir uma cozinha equilibrada entre as especialidades dos dois países, evitando também uma guerra culinária.

Do lado de fora do restaurante ficam os guardas da fronteira Croata, que não comem no Kalin porque não querem por os pés na Eslovênia. Do outro lado os guardas eslovenos fazem o mesmo. Já os clientes circulam à vontade dentro do restaurante, mas ao sair pela porta…  infelizmente uns têm que ir sempre à esquerda, enquanto os outros, sempre à direita.

Vista do restaurante Kalin

Vista do restaurante Kalin

Mais sobre este assunto você lê no NYT aqui e aqui, de onde tirei o post.