O novo jeito de pedir pizza…

O marketing aplicado às novas tecnologias de comunicação está evoluindo. Vejam só aqui a nova forma de pedir pizza pelo aplicativo da Pizza Hut para o iPhone, que está bombando nesta semana na web. Em 2 semanas de lançamento já foram 100 mil downloads, que vc pode fazer aqui prá ver como é (mas que só envia pedidos nos EUA).

Genial, não?

Um bom marketing gastronômico e o mito modernista

Aqui mais uma sobre o restaurante Dalva e Dito, desta vez no Financial Times:

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Todos vocês leram a enxurrada de críticas ao novo restaurante do Alex Atala, o Dalva e Dito, em São Paulo, nos últimos 2 meses, em toda a mídia, certo? Algumas críticas construtivas, positivas ou negativas, mas a maioria trazia um resumo implícito simplificado: “olha ele lá com todo seu marketing, coisa boa não deve ser”. 

Uma em especial chamou muito a atenção, que foi a crítica da Veja SP assinada pelo Arnaldo Lorençato. Muitos gostaram e entraram na linha “vejinha classe média”, do tipo seja ‘in’ – seja igual, muitos outros a criticaram pela sua implacabilidade estomacal com um restaurante recém aberto, e outros ainda o acusaram de oportunismo midiático ao criticar na mass-media o mais famoso chef do país.  A questão é que esta crítica não trouxe aspectos positivos do restaurante, que sim existem, e muitos, e os tantos aspectos negativos citados certamente podem ser relativizados. O pouco que conheço pessoalmente do Arnaldo e o muito que conheço de suas críticas são suficientes para conhecer a sua intelectualidade gastronômica e seu claro entendimento profissional da crítica, que eu admiro, mas pessoalmente não concordo com o tom desta crítica na Veja pelo fato dela não ter aberto espaço para a consideração de que o Dalva e Dito é a primeira iniciativa para trazer a realidade culinária brasileira doméstica ao círculo elitário da alta gastronomia, um risco e tanto que o Atala assumiu, e que só faz bem para o desenvolvimento da maturidade da nossa cozinha e para o reconhecimento do que realmente comemos no dia-a-dia.

Mas sobre este assunto, o melhor comentário é sem sombra de dúvida o que fez o nosso sociólogo da cozinha brasileira Carlos Alberto Dória em seu blog e-Boca Livre, onde achei eco – leia aqui – mas leia mesmo pois seu texto é muito esclarecedor para entender este fato (aqui abaixo copio um trecho).

Então, como acredito que tanto fato quanto fenômeno estão muitíssimo bem explicados pelo Dória, e o assunto já envelheceu na mídia, eu aqui só vim mostrar a crítica do Dalva e Dito feita pelo Charles Campion do Financial Times.

Ele tece elogios à culinária do restaurante, e assim à culinária brasileira, retratando o desafio de mostrar ao mundo o que é que o Brasil come em casa. E levou às páginas de um dos mais importantes jornais de economia do planeta o fato de aqui termos ingredientes fantásticos e que valem muito conhecer e explorar. E ele ainda concorda com o próprio Atala quando o chef diz que o Brasil ainda estará entre os líderes mundiais em gastronomia nos próximos anos. 

Pois é, convenhamos, além dos vários chefs que muitas vezes gastam dinheiro de seu próprio bolso para levar nossa culinária à vitrine do mundo em eventos no exterior (minhas sinceras homenagens à Mara Salles, à Morena Leite, à Elzinha Nunes, à Ana Luiza Trajano e à tantos outros), qual chef tem no Brasil o poder de atrair a boa opinião internacional sobre nossa cozinha sem nem mesmo ter que sair de casa, senão o Atala? E isto é sim marketing, óbvio e claro. Parabéns ao talento e ao marketing do Atala. Ainda bem que tem gente fazendo isto com propriedade, pois sem o marketing gastronômico ainda estaríamos comendo filé a parmigiana em restaurantes “internacionais” em São Paulo e no Rio e achando isto o melhor dos mundos.

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Não resisti, e copio aqui abaixo o melhor trecho explicativo do texto do Dória, tirado de seu blog no link acima, vejam que genial, não pela questão do critico Lorençato, mas pela sua visão do mito modernista na gastronomia brasileira:

“Lorençato é um dos melhores críticos gastronômicos do Brasil, desde os seus remotos escritos na Gazeta Mercantil. Um raro intelectual da culinária, como atesta o seu recente – e excelente – prefácio ao livro de Katarzyna J. Cwiertka, Moderna Cozinha Japonesa (Senac, 2008). Mas, como muitos, talvez ainda esteja demasiado tributário do mito modernista da cozinha brasileira: somos a mestiçagem das heranças coloniais portuguesas, indígenas e negras. E, por apego a esse mito, nos sugere que Dalva & Dito não “vale quanto pesa”, pois nele o Brasil é “coadjuvante”. Ora, o mito foi tecido a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, especialmente pela aplicação culinária que lhe deram depois Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Sua utilidade para os negócios da indústria do turismo é mais do que óbvia, pois esta aterrizou as diferentes “influências” em vários destinos turísticos (vai-se ao Rio Grande do Sul para comer churrasco; a Salvador para comer acarajé; a Belém para comer a culinária de origem indígena e assim por diante), criando um mosaico que justifica a deambulação pelo país, “nas asas da Panair”. No entanto, o valor explicativo do mito para a gastronomia é nulo. 

Como mostrou a antropóloga Lívia Barbosa [“Feijão com arroz e arroz com feijão. O Brasil no prato dos brasileiros”. Horizontes Antropológicos, ano 13, n. 28,jul/dez de 2007], essas comidas “regionais” não compõem a dieta doméstica do brasileiro. A pesquisa que ela fez nas regiões metropolitanas mostra que, no almoço, “94% […] declararam comer arroz e feijão, acompanhados de algum tipo de carne vermelha (69%), galinha (42%), salada (30%), macarrão (24%), verduras em geral (22 % ) e legumes (18%). O consumo de arroz fica acima de 90% em todos os grupos sociais”. De 130 itens alimentares citados pelos pesquisados, “apenas nove podem ser considerados regionais (macacheira, batata doce, inhame, arroz de carreteiro, polpeta, polenta, moqueca de peixe, cuscuz, baião de dois e caruru) todos com menos de 0,5 %”.

No geral, “o consumo dos itens regionais é muito baixo, mesmo nas próprias regiões. Tapioca e baião de dois, por exemplo, aparecem com 1,4% e 5,4% de consumo em Fortaleza, respectivamente; polenta 4,1% em Porto Alegre e 0.3% em São Paulo. A cidade com maior consumo de itens relacionados a sua cozinha tradicional é Recife, com 57,1% para o cuscuz, 10,2% para o queijo de coalho, 55% para o inhame, 36,7% para a macacheira e 6,3% para a batata doce”.

Está claro, portanto, que os “papéis coadjuvantes” que Lorençato atribui a “receitas e ingredientes nacionais” não é um erro de escolha do cardápio de Dalva & Dito mas um dado da realidade alimentar brasileira.  Por que um “brasileirão” deveria trabalhar para a manutenção de um mito que, com um século de existência, pouco serve gastronomicamente, em vez de partir do terreno mais difícil e verdadeiro, como são os hábitos domésticos calcados no arroz-com-feijão?

Tudo o que se come em Dalva & Dito é brasileiro no sentido mais arraigado da palavra e das práticas alimentares reais. Assim, só decepciona os prisioneiros da mitologia modernista. “

Muito interessante, não?

Açaí faz sucesso nos EUA com marketing trambiqueiro

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Açaí é brasileiro (foto Breno Peck no Flickr)

Matéria publicada na quarta-feira 11 no NYT e assinada por Abby Ellin, mostra o sucesso e o drama do marketing abusivo sobre o açaí nos EUA.

Nosso querido Açaí está fazendo um sucesso tremendo por lá. Diz a matéria que em 2008 foram introduzidos e licenciados nos EUA 33 novos produtos à base de açaí, contra apenas 4 em 2004, e que a venda de produtos à base de açaí alcançou a marca de 106 milhões de dólares no ano passado (imagino qual a ínfima porção desta grana é a parte dos produtores de açaí no Brasil perdido do norte). São produtos desde alimentícios até estéticos e rejuvenescedores, e é aí que está o problema.

produtos-de-acai2Os produtos à base de açaí estão sendo vendidos principalmente pela web, e prometidos como produtos “milagrosos”, como “a fruta misteriosa que vem da amazônia” e que vai fazer você emagrecer, rejuvenescer, e até remover suas rugas. E estão também usando desautorizadamente o nome de famosos para testemunhar e assinar os produtos, como a Oprah Winfrey. Mas agora a mídia e autoridades começaram a perceber que não há pesquisas que comprovem nada. Claro, não há mesmo. Mas um tal de Dr. Schauss afirma que o açaí é um excelente anti-oxidante e baseia-se em uma pesquisa que ele fez com… 12 pessoas.

Ou seja, vieram uns americanos prá cá, levaram a fruta prá lá, outros seguiram e fizeram o mesmo, e aí armaram uma fúria marketeira que a transformou em fruta milagrosa ao ampliar e exagerar o conceito de açaí que nós mesmos temos, e começaram a vender seus produtos pelo mesmo sistema que vendem as bombas para aumentar seus pênis ou as pilulas de viagra falsificadas. Enfim, na terra do Tio Sam o açaí virou trambique de malandro americano.

Na verdade a única coisa que se sabe sobre o açaí é o nosso hábito brasileiro com a fruta, que em sua maioria, nós aqui comemos açaí como algo que “substitui uma refeição”. Aqui no escritório mesmo tô cansado de ver a moçada que de vez em quando ao invés de “bater um rango, batem um açaí”. E tenho certeza que no norte e nordeste do Brasil, onde mais se consome a fruta, o açaí já deve ter “curado muita gente” e “salvado muito pai d’égua na hora da cama”, além disso mata a fome que é uma beleza.

Mas aqui a gente fica só nessa mesmo, crenças, sensações e múltiplos usos das energias da fruta, que sem dúvida é porreta mesmo. Mas lá, a coisa ainda vai acabar dando polícia, vai vendendo a imagem do Brasil curandeiro, e quem sabe, ainda não vai aparecer alguém requerendo patente sobre a fruta, como já fizeram no passado com o cupuaçu.

Vamos lá gente, vamos comer mais açaí prá combater o comércio desafinado destes gringos do trambique!

Fast-foods deveriam suspender a venda de lanches com brinquedos?

hamburger-toy1Saiu hoje no Estadão uma enquete com este título: “Redes de fast food devem suspender a venda de lanches com brinquedos?”, e duas opções de resposta: sim ou não.

Até o momento da publicação deste post o resultado estava em 60% sim e 40% não.

Parece que uma resposta direta para o sim seria a coisa mais certa e ética, certo? Ok, para muitos sim. Mas para mim parece meio óbvio que a resposta é NÃO.

Deixar de oferecer brindes é uma atitude contra o marketing (no caso o promocional), ou seja, é atacar o conceito central do mercado, o mesmo que nos dá conforto de escolhas, nos dá qualidade por concorrência, diversidade de ofertas, o teu carro na garagem, a tua bolsa de marca ou o teu último modelo de celular (e que também tem seus mega-desequilíbrios sociais, sei disso, mas por favor, marxismo na prática não rola, certo?). Concordo que proibições para ações de marketing são válidas para produtos que fazem mal por si só, como é o caso do cigarro, do álcool, e de qualquer produto intrinsecamente danoso. E mesmo eu sendo a favor da reeducação pela saúde alimentar, e principalmente para as crianças (que isto fique claro aqui), não vejo razão para uma proibição deste tipo.

O problema não está aí, e mais uma vez ninguém vai a fundo no problema enquanto todos resolvem atacar o lado mais fácil e superficial, porém ineficiente.

O problema da saúde alimentar, principalmente no caso dos fast-foods, é que não há nenhum órgão, lei ou entidade que regularize o aspecto nutricional dos alimentos. Não tem nada que obrigue os alimentos industrializados a serem saudáveis e nutritivos!! Explico: se você passar dias só tomando leite, isto vai te fazer mal, se passar dias só bebendo água, isto vai te fazer mal, se passar dias só comendo alface, isto vai te fazer muito mal, e se passar dias só comendo fast-food, isto vai te fazer mal também. Tem que equilibrar.

Mas não é só isto…

No Brasil quem regula a qualidade dos alimentos é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que tem várias formas de fazer isto, uma delas é aquele selo de qualidade S.I.F. (Serviço de Inspeção Federal) que a gente vê nos produtos de origem animal. Fantástico. Teoricamente eles checam todos os alimentos de origem animal que consumimos para ver se não estão contaminados, se têm as bactérias x, y ou z, se estão estragados, se provêm de lotes com problema, etc, etc, para ver se determinado alimento pode causar alguma doença ou problemas ao comê-lo. Isto está muito bom e garante que se você comer, por exemplo, um hambúrguer, você não vai passar mal por isto. Pode comer à vontade. Mas se você decidir comer um pouco da grama do teu jardim e ela estiver limpinha, tudo bem, tão pouco vai te fazer mal algum.

Mas da mesma forma no Brasil não tem ninguém que obrigue que os hambúrgueres sejam nutritivos e balanceados, MESMO SABENDO QUE AS CRIANÇAS ADORAM COMER HAMBÚRGUERES!! Não tem ninguém que fiscalize o valor nutritivo dos alimentos, não há regras para isto. Obrigam a escrever nas embalagens todas as informações, mas não obrigam que estas tabelas de nutrientes dos produtos industrializados e de consumo em massa, como é o caso dos fast-foods, sejam equilibradas segundo as nossas necessidades. Basta que estes alimentos sejam comestíveis e que não estejam contaminados, e tá liberado, pode vender à vontade.

Devem é obrigar as redes de fast-food e a indústria a venderem alimentos balanceados e realmente nutritivos. Mas como a indústria vai fazer isto? Problema deles, têm jeito sim e eles teriam que ser obrigados a fazê-lo. Custa mais caro para eles, vai reduzir o lucro e dar mais trabalho. Ótimo, esta á a base do marketing e do mercado que eles precisam para viver, concorrência e inteligência.

Mas aí, ao invés disto, se realmente for proibida a promoção com brindes para crianças nas redes de fast-foods, tudo bem, eles vão inventar outra forma de promoção, as agências são incrivelmente inteligentes e competentes para isto, e as redes vão continuar vendendo porcaria aos montes para as crianças e adultos do país (como estas coisas estranhas que colocam no meio dos hambúrgueres), e que por sua vez vão continuar engordando e morrendo de complicações derivadas disto. E mais dinheiro será gasto na saúde pública.

Pois é, concorrência e inteligência é o que também está faltando nos (des) governos deste país. E tá muito difícil deles fazerem algo realmente bom e eficiente pro nosso povo brasileiro, não tá não?